segunda-feira, 14 de março de 2011

O MANUAL E A SOBREVIVÊNCIA

        Camuflado entre as leituras acidentais de fim-de-semana, estava o “Manual de Sobrevivência” em terra, mar e ar, presente de um prezado amigo.
         Não confundi-lo com o “Diário do Sobrevivente”. Imagino que a sutil diferença entre um e outro é, no mínimo, um belo galo na testa...
         Pois o “Manual de Sobrevivência” – vade mecum obrigatório de destemidos aventureiros, que ainda conseguem driblar a vigilância da psiquiatria de plantão – lá estava, tal qual um dicionário, com todos os informes necessários para o supremo desafio de resistência em habitats estranhos e ligeiramente hostis.
         No capítulo das coisas comestíveis em plena selva virgem (perdoem o anacronismo do Manual), há até saborosas receitas que incluem raízes de jalapão ao molho de formigas do brejo. Cuidado! Só valem as de pinta roxa. Medalhões de jaguarandi, guarnecido por folhas de macambira regados ao caldo de pitanga. Uma verdadeira delícia!
         Se a fome estiver naquele ponto incontrolável, a recomendação é uma refeição mais densa e substanciosa. A sugestão do chef poderá ser ensopado de sucuri, peito de onça gratinado, ou rabo de jacaré frito. Como entrada, cai bem uma generosa salada de peucédanos vivos e broto de urtigão.
         Um verdadeiro manjar dos deuses...
         Visto está que este banquete é tão apetitoso quanto perigoso – por isso, convém não perder de vista o pé de página do Manual que, em tempo, aconselha – “olho vivo e pé ligeiro”. Em letras quase ilegíveis ainda reforça – “será sempre saudável guardar bem as costas”...
         Portanto, o gourmet que tiver o real interesse de preservar-se vivo, falante e saltitante, deverá não esquecer de ser rápido e rasteiro ou... precisamente, mais rápido e mais rasteiro que uns e outros...
         Mas o melhor da festa é esperar por ela. Portanto, não desanime.
         Colha todas as esperanças e aventuras que puder. Cuidado com as abelhas. Vá em frente, com garbo e confiança – dê um tapa na surucucu, desvie da areia  movediça, não caia no abismo, chute jaguatirica, vá lá e mostre como se escapela uma ariranha. 
         Sempre me impressionou o doce destino dos heróis das histórias infantis, que, exilados em sombrias e longínquas florestas, conseguiram sobreviver, condignamente, alimentado-se apenas de raízes, cascas e frutas. Flores e sementes no café da manhã, naturalmente. Essa contracultura estomacal talvez explique a cara enfastiada, triste e fenestrada de Robinson Crusoé. Talvez...
         O Manual traz outro título que julgo útil e oportuno. Chama-se “Indígenas”. Primeiro esclarece sobre sinais e sintomas para o reconhecimento de tal espécime.
         A rigor, devo dizer que nesse particular o Manual é levemente impreciso.
         Li e reli, exaustivamente, essa parte mas, enquadro o porteiro do prédio e o dono da quitanda nas definições silvícolas do livro. Eu sei que tem mais gente nesse bolo mas não vou comprar briga de graça. O que vale, aqui e agora, é o ruidoso alerta do Manual: “Em presença de tais seres, não faça movimentos bruscos, seja cordial, não demonstre medo, nem empáfia.
         Convença-os a ajudá-lo: não exija, seja natural, descontraído coloquial, efusivo – mantenha permanente sorriso nos lábios, argumente, bata na mesma tecla, sem muita força é claro, implore, faça sinais de fumaça, mostre a carteira de seu clube de serviço, diga que o Brasil tem futuro, exponha suas idéias, não pise no tacape e antes que o pior aconteça, ponha alguns dólares na parada”.
         Nas entrelinhas dos epitáfios de muitos desbravadores é possível ler que os ditos cujos estão, prematuramente, sob lápides porque, afinal, não chegaram no preço. Mesmo em se tratando de índios, é bom ter algum trocado no fundo do bolso. De preferência moeda com valor cambial razoável. Sim, porque índio é tudo menos besta. A fase dos espelhinhos e dos apitos, pré-jesuítica, há muito já foi para o espaço e, dizem os entendidos, custará a voltar. Bons tempos aqueles... O advento da poupança múltipla, que, diga-se, já chegou às selvas, modificou, sobremaneira, a índole e a têmpera dessa boa gente dos brejais.
         Os índios que hoje gorjeiam não gorjeiam como dantes...
         E por aí segue o heróico Manual, dando leis e dicas de como sobreviver neste vale cheio de lágrimas e perigos. Permaneci na terra. Nem de longe me aventurei a penetrar nos intricados capítulos do mar e do ar.
         No chão mesmo, antes que o telefone toque, recebo outra indesprezível lição – “As mil e uma utilidades do pára-quedas”. Nunca imaginei que tanto se pudesse fazer com um pára-quedas em terra. Começo com a sugestão socialmente mais significativa – Faça de seu pára-quedas uma casa, ou quase isso. Prenda a geringonça em quatro pontos equidistantes, que podem ser galhos e pronto. Eis a sua casa!
         Pára-quedas de primeiro mundo tem a vantagem de já vir com as argolinhas próprias para esse fim. São mais largos, impermeáveis e não rasgam na primeira queda. Os de terceiro , justiça seja feita, muito têm servido para alegres e divertidas bolas de pano dos campeonatos de várzea.
         E fico pensando, aqui em baixo, nos patéticos e insolúveis problemas habitacionais de nosso querido povo. Fala BNH!... Esse sofrido povo que não tem onde esconder a cabeça, servindo de cobaia no laboratório das idealizações político-eleitorais dos governos, bem que poderia usufruir a comodidade e a praticidade de um pára-quedas amigo. Lar doce lar e um manual para educar... Galhos, onde prender? Esses não faltarão, com certeza.
         E assim o Domingo foi escorrendo pelos dedos do Manual. Pela janela o sol se punha atrás de dois mendigos que garimpam, no lixo, um pouco de comida e os restos de um pára-quedas de crueldade.
         Ao longo se vislumbra alguma humanidade! Pela porta aberta, o vento forte agita as samambaias, dobra as cortinas, esparrama os papéis, derruba o vaso e vira a página. Vira?
         Um dia virará...  

LEITE NO PORTÃO

      Ao entardecer, era hábito tocar-se por diante uma vaca ou duas, rua a fora, para ser, doce e calmamente, ordenhada ao gosto do freguês.
         Depois que o General Mac Arthur disse que “juventude não é um período da vida e sim um estado de espírito”, não temo contar certas experiências pessoais de antanho que, como quer, denunciam uma longa jornada de primaveras.
         Do alto dessa sacada juvenil, tão estranha no estilo quanto absoluta no conteúdo, é que falo de um fato visto, vivido, acontecido e provado, há mais de 40 anos.
         No tempo em que os paralelepípedos e o asfalto ainda não tinham rendido as ruas de terra, pois, até em volta da praça houve formidáveis “peludos”, em dia de chuva, vendia-se (quase dado) leite, de porta em porta, espumoso, quentinho, gostoso, saído a gosto, da genuína embalagem original. Ao entardecer, era hábito tocar-se uma vaca ou duas, rua a fora, para ser doce e calmamente ordenhada ao gosto do freguês.
         A caravana sempre muito lânguida, mas providente, ia parando aqui e ali, saciando a sede, a melancolia e a tradição de uns, outros e outros. Juro que um dia flagrei o sol do ocaso, aceso de curiosidade, fazendo tempo, atrasando a marcha, só para assistir a engraçada cena. Digo mais – doa a quem doer – que vi o astro-rei morrendo de rir, mais do que de entardecer, daquela vista insólita, muito humana.
         A nossa vaca era de uma mansidão patética. Cruzada de Normando, espatifava, lenta e ruidosamente, seus pesados cascos, rua a dentro, deixando um rastro de odor original e sábias pegadas. No portão armava-se o circo. Uma bandeja cheia de canecas vinha lá de dentro. Do lado de fora, a gurizada inquieta reinventava travessuras. No rigoroso limite de seus botões, no mínimo dois adultos, suficientemente sérios, punham ordem da farra. Meia dúzia de desocupados emprestavam brilho ao encontro.
         A vaca, imperturbável, bovinamente ruminava, enquanto o conhecido leiteiro, muito dono de sua função, multiplicava mãos, gestos e gentilezas. Um copo para o menino, uma caneca para a menina. Bastante espuma para um, menos para o outro. E assim morria o dia, de barriga cheia e alma vadia...
         Naquele tempo, servia-se leite de casa em casa, com vaca e tudo. Não havia saquinhos nem prazo de validade do produto. Era tudo feito de forma direta – sem intermediários ou subterfúgios...
         Eu conto o que sei, o que vi, e o que experimentei! Disso mais dirá o sol daquelas tardes, testemunha fidedigna dos fatos que relatei.
         Fala sol...! Se faltar o verbo, que fale a lua, a estrela, o corisco, a fada ou a fantasia...

CHAVES

       Não saberia dizer de onde nem quando surgiu essa necessidade humana de chavear-se por todos os lados, sob diversos pretextos. O fato é que cada um de nós poderia valer seu peso em chaves...
         Já repararam quanta chave cada um possui?
         É a do cofre, a da gaveta, do telefone, do carro, da casa, da caixa postal, da moto, do computador, da porteira, da geladeira, da mala, do armário, do gás, da loja, da bicicleta, da adega, da urna, do campanário, da despensa, do galpão, da gaita, do avião, do baú, do navio, do relógio, da luz, da cidade, do coração...
         Houve um tempo em que se pretendeu medir o poder de uma pessoa pelo número de chaves que portava. Nessa época, de tamanho sincretismo funcional, ter a chave significava possuir a resposta. Ter a chave era ter a saída. Resposta de quê? Saída para onde? Dizia-se que o rei reinava mas quem mandava, mesmo, era seu guarda-chaves. Era? Os que conviviam entre gemônias e masmorras sabiam bem que era.
         Na Idade Média, os famosos cintos de castidade, chaveados por todos os lados, batizaram um estilo de vida ainda hoje, plenamente, valorizado. Naquele tempo, os heróicos e ausentes cavaleiros das Cruzadas, entregavam as preciosas chaves a guardadores tão confiáveis quanto eunucos...
         Em pragmatismo sabiamente solenizado pela máxima – “reze mas mantenha o camelo bem amarrado” – varou os séculos para chegar íntegro até nós, pelo bem de todos e satisfação quase geral da nação.
         Atavismo moral não se discute – cumpre-se e seja o que Deus quiser...
         Chave – esse objeto de amor e do ódio, da crença e da dúvida, da satisfação e da frustração, do sim e do não, da ação e da omissão, do bem e do mal, do tudo e do talvez...
         Mas, então, busquemos a origem dessa engenhoca tão cara para nossa humanidade. Quem, afinal, são os inventores ou descobridores de tal prodígio?
         Todos sabemos que a fechadura foi inventada  pelos portugueses. Foi!
         E sobre isso não resta qualquer meia volta de dúvida.
         E a chave? Essa veio tempos depois provocando verdadeiro furor no contexto histórico-existencial da época. Há controvérsias. Alguns dizem que foram os ingleses que, enfim, aperfeiçoaram o ousado invento dos lusitanos. Outros afirmam que a chave foi, realmente, “inventada” por um raivoso e asfixiado batalhão de gregos, a bordo de um imenso, desajeitado e trancafiado cavalo de madeira, na famosa invasão de Tróia.
         Conta-se, até, que a hercúlea tarefa precisou de auxílio dos que estavam do lado de fora. Há crônicas febris da época, relatando a particular dificuldade para destrancar-se a porta do tal cavalo.
         Dizem os detalhistas que nessa oportunidade podem ter surgido, em boa hora, a utilitária chave de fenda e a esnobe chave inglesa.
         A história não entra em pormenores, mas não é difícil deduzir que a própria chave cachimbo foi devidamente usada na ocasião, oportunizando o ato solene de fumá-la, depois do percalço, a fim de consolidar e referenciar a grande paz.
         Guerras à parte, voltemos ao miolo da questão.
         Há chaves para todos os gostos e propósitos. Existem as de braço, as de pernas, as gramaticais, as sistemáticas, as genealógicas, as borboletas, as de boca, as de estrela, as  eletrônicas e tantas outras, de inestimável valia.
         A melhor cena teatral que testemunhei foi aquela do gigante que após arrombar a porta do reduto onde estava a indefesa mocinha, engole a chave com estilo, mastiga  a dita cuja com arte, e lança cúpidos olhares em direção à presa, inapelavelmente perdida. Observem a dimensão dessa atitude, cabalmente irrecorrível!
         Vendo bem, na vida real, tudo é assim – uns fecham e abrem e outros apenas passam, ou jamais passarão...
         O assunto é vasto e merece outros desdobramentos. De minha parte, devo dizer, que estou aqui, atônito, solitário, desamparado, procurando utilidade para uma diminuta chave que não sei onde se encaixará. É uma chave pequena, simples, bronzeada e de pouco peso. É de uma gaveta, descubro com alegria e esperança. O que contém essa gaveta? Dólares? Ações? Jóias? O segredo da eternidade? As respostas da felicidade?...
         Não!
         Dentro da gaveta há mais uma porção de chaves... E só!
         

ESCREVER

      A mórbida sanguessuga grudara-se, vagarosamente, na perna de Rita e um grito de medo/surpresa repicou nas suaves ondulações da lagoa.
         Um ventinho clássico, enrugando a tarde, fustigava a melena de Romário, estancando na barranca, de olho na bóia. Maria coçava, preguiçosamente, a palma da mão esquerda, campeando, no vazio, muitas luas para seu sonho de menina. Pitangas bravias tingiam a boca inexperiente de Lucas. Milena penteava-se com moleza e graça. Chico corria, obstinadamente, atrás de uma bola murcha. João quebrava gravetos com determinação e Pedro palitava os dentes com mansidão. Um bando de marrecas piadeiras pontilhava um tosco V no céu rosado e os galhos pendentes do velho salso choravam a morte de mais um dia de criação...
         Bem que esse poderia ser o bom começo de uma história simples, comum, promissora de emoções e repleta de qualidade humana. Esse flash de uma mera convivência familiar, espraiada em um dos milhares nichos de nossa rica e agredida natureza, poderia traduzir a grandeza das relações inter-pessoais embutida na misteriosa gruta do aleatório. O papel aceita tudo. Melhor dito, possibilidade extrema. Tal como no sonho, tudo pode acontecer. Escrever é destrancar cancelas existenciais e arregaçar entranhas emocionais, sem medos e sem culpas, para o que der e vier. Escrever é saltear tijoletas, pisando as desiguais, pulando linhas, num bailado tresloucado em busca de... liberdade.
         Escrever é vencer, sem tréguas, o soluço do corriqueiro. Escrever é desafiar, perigosamente, a suspeição do impossível...
         Na verdade, muito mais se exige na arte/ciência de escrever e convencer.
         A forma tem seu valor, mas o conteúdo é que realmente move e comove. A lógica não é imprescindível. A coerência é. O encadeamento é quase desprezível mas o comprometimento do contador é fundamental. Não basta narrar, é preciso sentir, se possível vivenciar, um tanto e um quanto do que se narra.
         O contador tem que sagrar suas próprias veias para revolucionar a alma do leitor. Escrever não é um ato impune. Escrever é a espontânea auto-condenação ao severo castigo em busca da expiação para a transcendência. Transcender é o limite para o ilimitado...
         Escrever é um meio e o fim será sempre incomensurável. No fundo, escrever é um tique subjetivo que toca o próximo pela semelhança ou pela imensa diferença sentimental ou circunstancial. O escrito é, no íntimo, o arrimo universal da inquietude das almas que crescem e por isso... padecem...!
         Escrever é a sufocação da mediocridade pelo supremo sopro da inspiração.
         Escrever é dedilhar estrelas, tanger nuvens e percutir o infinito.
         Escrever é o grito que a humanidade faz ecoar para viver e renascer.
         Esse o ato de escrever. E para os céticos ou desligados é bom que se diga que escrever é tudo isso e mais, porque será apenas loucura e insensatez pensar que o mundo na humanidade não será tão fundo, para sempre criar assombros – separando os dedos e juntando os ombros.
         Escrever é o sublime vício de liberdade... 

SABEDORIA PORTÁTIL

Sempre cultivei grande simpatia pela sabedoria condensada dos provérbios.
         A dimensão sinótica dos aforismos revela, de forma cabal e pronta, a maneira de ser, estar e sentir dos povos em suas aventureiras navegações, no largo e tortuoso mar das interações gerais.
         Gosto dessa sabedoria “fácil”, direta, objetiva, totalizada, globalizante e finalista. Não a julgo sob prisma crítico, apenas a aprecio. Entendo-s como sobejamente útil, funcional e gostosamente intrigante.
         Durante muito tempo só os almanaques nos abriam oportunidade de convivência com essa alegre (e sempre oportuna) erudição popular. Hoje, um livro bem engendrado me chega às mãos ao sabor do acaso. Li e reli a peça e não me perdoaria se não gerasse a chance de dividi-lo com meus apreciados leitores. É o que faço a seguir. Selecionei algumas. Percebam o condimento lógico das mensagens.
         “Melhor ser ruivo do que sem cabeça” – esse é irlandês. Os alemães dizem que “onde não há inimigo, há luta na certa”... Os italianos concluem – “quem tem amor no peito tem esporas nos flancos”. “No dia da vitória ninguém se cansa” dizem os árabes. Já os chineses recomendam – “deixe todo o mundo varrer a neve de sua porta, mas não se meta com a geada no telhado do vizinho...”
         Um espanhol, provavelmente basco, disse – “se eu morrer te perdôo, se não, veremos”. Na Pérsia dizia-se – “por uma orelha se escuta e pela outra se esquece”. Em sânscrito escreveu-se – “não é defeito do poste se o cego não o vê”. Os hindus sentenciam – “cada homem é guardião de sua própria honra”, enquanto os iugoslavos asseveram – “não é fácil encontrar o bem mas é fácil reconhecê-lo”. Os portugueses alertam – “por mais cedo que se acorde não se pode apressar a aurora”.
         Os gregos comentavam – “gato de luvas não pega ratos”. Os japoneses dizem – “é melhor uma boa ação perto de casa do que ir longe queimar incensos”.
         “O bajulador tem água numa mão e fogo na outra” – dizem os austríacos.
         “Na dúvida, fique onde está” – aconselham os ingleses. Os franceses são sutilmente picantes ao recomendarem – “tranque sua porta e preserve a honra de seu vizinho”. Os russos não poderiam ficar calados e certa feita disseram – “quem empresta um livro deveria ter uma mão cortada, quem o devolve, as duas”. “A segunda palavra provoca a briga” – observam os húngaros. E assim por diante. Verdadeiras jóias da sabedoria popular, perfeitamente assimiláveis e transportáveis, pois cabem no istmo de um soluço ou no entreato de um olhar.
         Gosto muito também das moleques variantes a respeito dos conhecidos e sovados provérbios, hoje já sem geografia e identidade nacional. “Onde há fumaça, o ar é irrespirável”, “Quem corre porque quer, não cansa – cansa os outros”, ou ainda: “o sol nasce para todos os telhados”. “O povo aumenta, não inventa, mas se contenta”. “Quem dá aos pobres fica com problemas de caixa”. “Quem tudo quer, paga mais e à vista”. “Em boca fechada não entra mosca, nem sai”. “Quem tem boca vai a Roma – quem não tem, sai...” Já os portugueses são enfáticos quando sinalizam: “Dize-me com quem andas e te direi quem te acompanha”.
         Dizem que o célebre Ibraim Sued, certa vez, ao concluir sua sábia locução, arremeteu um provérbio de conteúdo absoluto para não deixar dúvidas em seu comentário relativo. Disse: “...e a caravana passa enquanto os cães piam”. Alguém reclamou: “Cães ladram, não piam – ora pois”. Ao que Ibraim respondeu – “Os cães são meus e fazem o que eu mandar – ora pois”!
         Concluo invocando a sabedoria latina, jeitosamente portátil e reconhecidamente utilitária que diz: “As palavras voam, os escritos permanecem...”
         As editoras decidem. Decidem ou apenas lucram? A indagação não é proverbial mas bem que poderia ser...      

sexta-feira, 11 de março de 2011

O ESCRITOR

       Vinha de muito tempo aquela vontade de escrever coisas bonitas, cativantes e impressionantes. Parecia que vinha de outro mundo.
         Um dia, armou lápis e papel sobre a mesa de jantar e pôs-se a pensar. Enquanto as idéias não vinham, juntou as mãos e começou a brincar de fazer figuras de sombra na parede. Fez um coelho, depois um gato e logo em seguida um cachorro, brabo e rabão. O que era aquilo que aparecia, agora, na parede?... Seria um urso branco do pólo norte? Ou, simplesmente, um mico dourado da mata atlântica? Que nada – era apenas um cavalo velho, carregando um índio cansado, pampa a fora... Imaginação era o que não faltava. Uma rosa, abria seu botão na sombra da parede. E era azul!...
         Multiplicava imagens na tela improvisada mas nenhuma palavra povoava  o papel sobre a mesa. Tinha que pensar. Pensar e sentir. Conjecturar, inferir, refletir, arrancar, das alturas e das planuras, a inspiração capaz de aprisionar verbos, substantivos, adjetivos e advérbios em texto longo, lógico, convincente e belo. Como era difícil escrever! A tensão do querer multiplicava fantasmas. A disposição do fazer pulverizava o espírito e os assuntos perdiam gás e azo nos ângulos do espaço e nas quinas do tempo. E mais – perdiam sentido na nulidade do ambiente. Escrever o que se quer, para gosto de todos, com estilo, perseguindo a encomendação da glória na posteridade, é pesada e eleve, pró e contra, verídica e falsa, absoluta e relativa, inteira e repartida, solta e contida, soberana e submissa. É um meio termo justo, cuja sutileza traiçoeira, porém, abate a tantos na mira da ambivalência... Escrever é um ato médio, quase imponderável, que não limpa nem suja, que não prende nem liberta, que não mata nem cria, que não pacifica nem revolta, que não diz sim nem não, que não ama nem odeia, que não faz nem desfaz. Escrever é, rigorosamente, difícil. E o difícil não fica menos difícil depois de escrito.
         Se o mundo externo não provia inspiração suficiente, seria preciso buscá-la no universo interior – onde todos os astros têm luz própria e ainda não padecem o processo inexorável de auto-degradação. O interior é mais confiável. É?...
         Resolveu levantar e caminhar. Andou daqui pra lá – de lá pra cá. Sentou-se. Abriu um livro de Malba Tahan, acendeu um cigarro, cruzou as pernas, pegou seu mata-moscas, chutou o gato, assoviou a Marselhesa, quebrou o palito, acertou o relógio, pendurou os olhos no lustre cheio de teias de aranha e nada. Nenhuma palavra lhe vinha à cabeça para começar seu inesquecível escrito, definitivamente bonito, marcante, insinuante e cativante!
         Tudo tem sua hora. Pegou o lápis com decisão. Pegou-o com arte e convicção.
         Virou o papel, puxou a toalha para desfazer as rugas, olhou para a luz trêmula, respirou filosoficamente e escreveu: - “Eu”! Passou o lápis, mais uma vez, para deixar bem legível a palavra inicial, base de seu grande e eterno texto. Era um bom começo. Enquanto pensava na continuidade do escrito, desenhou, atoamente, uma árvore, nuvens e um sol de primavera. A árvore não mostrava raízes mas evidenciava ramos e galhos, impertinentes, que arranhavam os olhos do céu. Escrever era (e é) difícil...
         Riscou o “Eu” e escreveu, com decisão, “Nós”. Ao lado fez um círculo, depois um quadrado e mais uma figura sem forma convencional.
         Com certa raiva, num ímpeto, borrou tudo e escreveu “Ela”. Não estava bom. Apagou e escreveu “Vida”. Ou melhor – “A Vida”. Ou seria mais adequado “Uma Vida” ou “Essa vida”?...
         Na dúvida, resolveu amassar o papel, pegar outro e escrever: - “Apocalipse, parafernália, heliotropismo, teogonia, hermenêutica, pragmantismo, molduragem, rabdomancia, filigrana, etc”. Palavras que impressionam, mas, enfim, não dizem nada. Tudo em vão. Todo o esforço feito nada. Era preciso reagir. Vinha de muito longe essa vontade (quase imposição) de escrever coisas bonitas, cativantes e impressionantes. Era vital escrever, mas era severamente difícil.
         Parou, acalmou-se e pensou. Bateu asas e circundou o reduto de seu próprio eu, apreciando a paisagem doméstica e cotidiana dos sentimentos de sua circunstância literária. Sob um certo ponto de vista, não escrever seria mais significativo do que escrever. Calar comunicaria mais do que falar. Não dizer seria mais contundente do que dizer. Mesmo assim, apesar de tudo, resolveu arriscar e ousar – escreveria, custe o que custar, doa a quem doer. Pensou mais um pouco e então escreveu:
         “Sinto saudade de sentir saudade para poder escrever, saudoso, sobre a saudade que já senti e não escrevi ou esquecer da saudade que um dia escrevi e nunca senti...”

quinta-feira, 10 de março de 2011

CINCO MARIAS – O JOGO

Como se todas as contas da vida estivessem naquelas contas de pano e areia, Maria atirou-as para o alto, aceitando o jogo. Quando caíram nas frias tijoletas da varanda, sentou-se, com graça, para passá-las, uma a uma, pelo delicado arco de seus dedos. Para não bulir, passou a primeira, com arte. Era a Maria da inocência – menina dos balanços e das gangorras, das bonecas e das manhas, das tranças e das lembranças. Maria dos brinquedos e dos segredos, das balas e dos pirulitos, dos Pedrinhos e dos Carlitos, dos contos e das fadas, dos baús e das maletas, dos verões e dos condões. Um ponto de promissão...
A segunda passou por intuição. Era a Maria dos desejos e dos arpejos. Dos sonhos e das querências. Maria sem paciência – ardente, ingente, indecente. Maria dos pecados, moça dos bordados. Maria adolescente, inconsciente, inconsistente. Mulher de quatro lados – Maria do príncipe encantado, que a raptará, no fundo da noite, para seu castelo distante, em um cavalo alado. Um ponto da paixão...
A terceira passou como passam as águas da fonte pelos labirintos do riacho virgem. Era a Maria dos filhos e das lidas. Do fogão e da sofreguidão. Maria do lar e do mar que a imensidão navega sem rumo e... sem razão. Mulher dos deveres e dos afazeres. Dos aluviões e dos perdões. Maria das tinas e das rotinas. Dos trapos, dos farrapos e das incompreensões. Maria dos partos e das mamadeiras, das doenças e das contradições, das rezas e das ingratidões. Um ponto de procissão...
A quarta passou como passa o vento dos outonos pelos troncos das árvores que choram o desterro de suas folhas de verão. Era a Maria dos netos e dos bisnetos. Mulher compadecida, sofrida uma santa na beirada da vida, esperando, de braços abertos, o milagre da gratidão. Maria do perdão e da complacência. Da experiência e da penitência. Maria dos degredos e dos silêncios, dos contados e dos crochês, dos sibilos e dos vacilos, dos tropeços e das bengalas. Um ponto do perdão...
A quinta, Maria passará pelo delicado ardo dos dedos da vida no fim do jogo e dos tempos. É a Maria das almas e das crenças. Das ladainhas e das venerações. Dos juramentos e das remissões. Maria dos céus e dos véus, dos altares, dos nichos e das comiserações. Maria dos rosários e das orações, dos milagres e das assunções, das virtudes e das vicissitudes. Maria – simplesmente Maria. Mais um ponto de redenção...
Esse é o jogo – assim será o milagre. Essas as Marias de Deus e do Mundo. Mas, que jogo é esse? Cadê a magia?
Esse é o jogo do amor e a mágica do intento, é a grande sorte das contas de pano, areia e vocação que caem, uma a uma, nas frias tijoletas de uma varanda chamada paciência...
Contas para o alto – o jogo continuará. Quem viver, jogará...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Chove!!...

Incomodado por formigas, empregados, impostos e visitas inoportunas o Velho Moraes, um dia, resolveu vender a chácara. Chamou o corretor de sua confiança e autorizou o negócio. Coisa de ímpeto – impulsiva – momento de raiva e desgosto. Dois dias depois estava profundamente arrependido da decisão.
Mas, palavra é palavra, e naquele tempo era usual honrar-se a palavra empenhada, deixou correr a sorte por conta das tratativas do talentoso intermediário.
Lá por uma tarde de domingo aparece um interessado comprador para revisar a mercadoria. O Velho Moraes, contrariadíssimo, recebeu o pretenso e começou a mostrar as “comodidades” da chácara.
-         “Linda mangueira” – comentou, com entusiasmo, o pretendente.
-         “Precisa de reparos” – disse, secamente, o proprietário.
-         “Mas não embarra (?)...”
-         “Quando chove é um chiqueiro”.
-         “E os aramados, seu Moraes?”
-         “Ah, estão quase todos no chão”.
-         “Bem, isso se conserta...”
O empregado caseiro que assistia a conversa-caminhada olhou nos olhos do patrão, meio surpreso, sem entender o que estava acontecendo, pois os arames tinham sofrido reparos, recentemente...
-         “E o galpão. Seu Moraes?”
-         “No galpão chove – mais no centro e menos nas pontas...”
-         “Mas não chove”. Comentou o caseiro, timidamente.
-         “Chove ! !” – disse o Velho, de forma categórica.
-         “Tem formiga aqui?”
-         “Não só aqui – estão em toda a parte...”
-         “E a água?”
-         “É escassa, turva e saloba”.
-         “Mas é bem doce” – disse, com voz sumida, o empregado.
-         “Saloba ! !” – contraponteou o Velho Moraes, transpirando
impaciência.
A essas alturas o comprador  já estava entre desanimado e desconfiado.
-         “E a casa?”
-         “A madeira tem que ser toda trocada. Chove no quarto, na sala e na
varanda”.
-         “E na cozinha também chove? – “indagou, sutil, o esperto
interessado esperando surpreender uma contradição.
-         “Na cozinha não chove” – falou alto o caseiro, já, decididamente,
amotinado.
-         “É, na cozinha não chove” – concordou o Velho Moraes
aparentemente resignado. – “Na cozinha a água brota do chão como se fosse um manancial...”
-         “E os vizinhos?”
-         “São bons quando estão dormindo”.
-         “E os impostos?”
-         “São caros. Estou vendendo a chácara para poder pagá-los”.
Esse foi o tiro de misericórdia na alegria do comprador. Despediu-se e tratou de sair rápido de cena.
O Velho Moraes satisfeito de não ter faltado com a palavra e não ter cometido a besteira de vender a chácara, voltou para seus afazeres cheio de vontade e disposição. Enquanto ordenava a capina das laranjeiras ouviu uma ligeira queixa de seu caseiro.
-         “Seu Moraes, a casa está precisando de telhado novo”.
-         “Por que?”
-         “Porque chove como na rua”.
-         “Mas na casa não chove”.
-         “Chove ! – os outros compradores tem que saber disso...”
-         “Então chove. Mês que vem vou dar um reforço no teu soldo...”
“Chove e é mal assombrada, seu Moraes... 

Tele-União

E porque Ela estava irritada com sua novela preferida fora do ar, Ele teve que agüentar todos aqueles desaforos, temperados a alho e óleo. E não ficou por aí: - houve um ruidoso festival de prantos, lamúrias, espernegadas, burundangas, enfim, toda espécie do melhor histerismo e muito quebra-quebra. Era o limite! Sua paciência, em tempos de saudosa memória, fora um verdadeiro mar de duzentas milhas – um espaço faraônico de tolerância. Agora tinha enchido os tubos. Tudo cansa e tudo fenece... Dobrou o jornal, levantou-se, com aquela calma própria dos estranguladores convictos, rumou, célere, para o armário, desenroscou, com medida violência – antecipando o que faria com o pescoço dela – a tampa do ordinário conhaque familiar. Sorveu dois tragos que lhe caíram lentos e grossos como os minutos que antecedem as decisões fatais...
Avançou! Enquanto caminhava, resoluto, na direção do destino, não reparou nos olhos contemplativamente inócuos de um Buda reescalpelado pela fúria de uma filosofia impune. Para o bem da humanidade, era preciso que notasse a compulsiva insistência do olhar do Buda, pela inefável composição das paralelas sociais.
O “Eu e o Nós”, um dia, em algum lugar, vão encontrar o ponto de tangência para todo o sempre e nunca mais. Mas ele não viu o Buda e isso, agora, não tem a menor importância. Seu pensamento e todos os sentidos estavam voltados para o que estava prestes a acontecer. Daí a segundos viveria, (ao vivo e a cores) aquele caso que acabara de ler na página policial de seu querido jornal. E aquela notícia não passaria de uma simples nota de mera ficção, depois que se consumasse tudo o que estava pronto para se consumar. Antegozou o duelo da imprensa para obter os melhores ângulos e os mais discutidos detalhes, foi tomado de uma irreprimível, não obstante secreta, satisfação de criar e perpetrar detalhes. Quebrou o elefante de porcelana barata, presente da vizinha, aquela chata que não parava de vizinhar... Ah, era a hora de acertar todas as contas – antigas, e recentes; reais ou irreais. Era a hora da verdade. Verdade que abortaria, de maneira até certo ponto legal, a liberdade tão desejada. Guardadas as proporções, o que estava por acontecer, era mais importante que a queda da Bastilha. E lá ia nosso Mirabeau de porta de mercearia falida, arrastando chinelos de liquidação, com uma barrica (centro nervoso de suas decisões) engolindo e triturando um surrado pijama, outrora listrado, disposto a resolver, de uma vez por todas, a proposição Shakespeareana: - “ser ou não ser”. Chegou, parou, mirou, ia agir – e ninguém dava por isso – quando, de repente: “plim, plim” – a televisão voltou ao éter e nosso amigo ao álcool.
Que remédio?!... Adeus vingança! Como seria possível resolver o drama familiar se a telinha exibia uma tragédia bem maior, mais rica e com mais pontos no Ibope?? Como poderia ser forte e decidido na frente daquele viscoso e desenvolto mocinho, repleto de virtudes e um charme de parar o trânsito?? Como chamar a atenção da esposa – sim, porque, pelas costas ele não mataria nem mosca, por uma questão de princípios – no meio daquela tórrida cena horizontal de beijos, abraços, queijos, melancias, etc?? Como executar o estrangulamento planejado (e merecido) em face do exposto em 29 polegadas de magia e êxtase?? Resolveu recolher-se a sua velha e carcomida insignificância. Buscou um lugar no sofá furado, ao lado da mulher, e voou, com ela, através da novela para um mundo que os olhos vêem e o bolso não sente... A televisão, enfim, mais uma vez, salvou uma vida e uniu dois corações. Pelo menos até os próximos comerciais... Para que??...

O rastro

A moderna técnica de vender tem muitos lados e diversos desdobramentos.
A melhor escola do ramo continua sendo a do Oriente Médio (judeus, árabes, gregos, turcos, etc), mas a mais sofisticada é a norte-americana, sem sombra de dúvidas. E é de lá que vem mais uma novidade.
Para engrossar o fantástico contexto do “marketing”, surge, agora, um artifício que ainda vai dar muito o que falar. Chama-se “rastreabilidade” do produto. Consiste em perseguir, acompanhar e monitorar a mercadoria no pós-venda, até sua “última morada”. Não basta vender – é preciso saber por que se vende, para quem se vende e o que efetivamente se vende. O objetivo é óbvio: - vender mais e vender sempre...
Não basta vender um carro, por exemplo. É útil “rastrear” a satisfação do cliente, as circunstâncias de uso, a dependência, os novos valores advindos do ato de adquirir e utilizar as inusitadas vantagens ou desvantagens do negócio, enfim – é preciso embarcar junto com a mercadoria para ver e conhecer o “prazer” do usuário/consumidor.
Definitivamente, terminou aquela história de “comprar só para se ver livre do vendedor”... Agora não é mais assim. Se você comprar uma lata de salsichas, pode esperar que amanhã estarão batendo em sua porta querendo saber o que você fez com elas (?)...
-         O sr. já comeu as salsichas?
-         Olha, eu comi umas duas e as outras dividi com o cachorro...
-         Aonde está o cachorro?
Pode acreditar que atrás das portas e das vitrines, embaixo dos tapetes, na dobrada das esquinas, sobre o telhado, atrás das cortinas, no sótão, no portão, no vestíbulo, na cozinha, dentro do armário, nos pingentes do lustre e dentro do Box, têm um exército de incansáveis e determinados “rastreadores” espionando suas reações e “acompanhando o produto”. Você, que acaba de adquirir um colchão, não se surpreenda se, na calada da noite, e no bom do sono, for, gentil e sutilmente, despertado só para responder uma meia dúzia de perguntinhas assaz oportunas e deveras importantes para o progresso mercadológico de nosso louco mundo consumista. Não se surpreenda!...
Tem gente rastreando preservativo! Tem...! Em que pese os eventuais constrangimentos, a nova técnica veio para ficar e se disseminar.
Fico imaginando a divertida ou perigosa situação de rastreamento de mercadorias menos ortodoxas tais como bombas-relógios, granadas, empadas de rodoviária, xaropes para tosse, anti-diarréicos, Chevette 84, gravatas-borboleta, papel H, grampos para cabelo, zíper, galochas, disco dos Abóboras, erva mate de pauzinho, relógios Rolex (com dois erres), caninha da boa, óculos rai-ban, calças brim coringa, uísque paraguaio, etc, etc.
Cá com meus botões, dou asas a imaginação só para acompanhar o esforço de rastreamento de um par de alpargatas compradas ontem pelo heróico Abedão, bem ali no singelo (e sortido) armazém do Anicleto. Já pensaram?...?
Abedão comprou (e pagou – uma em cima da outra) um par de alpargatas 42, cor preta, pedindo pé e cancha e um bom tempo para sová-las. Os atentos e resolutos rastreadores foram atrás. Logo observaram que Abedão, desavisadamente, pisou em algo inconveniente reforçando um clima cujo odor espantaria qualquer mortal. Depois, notaram que Abedão sequer tirava as ditas cujas nem para dormir. Mais adiante, constataram que o consumidor não as calçava por inteiro, preferindo usá-las, displicentemente, como chinelos, deixando liberto o garrão. No baile, testemunharam a presença das ditas alpargatas esfregando o chão naquela vanera baguala e, vez por outra, pisavam os pés da prenda e chutavam o xale da sogra. Na hora de bebericar uma “guaraná”, lá estava Abedão, com um pé na alpargata e o outro solto e feliz da vida. Os rastreadores estavam sobrando em contentamento com o desempenho do produto. Ali estava um consumidor feliz... Estava??...
Pois sim – quando percebeu que estava sendo escandalosamente, observado, Abedão não se fez de rogado: - Tirou um pé da 42 preta e sampou na orelha de um rastreador. A outra, encostou no nariz do companheiro intrometido, deixando-o desmaiado por muitos dias. E assim se conta a história dessa nova técnica de vendas que tem tudo para dar certo. Ah, se tem...!