terça-feira, 17 de maio de 2011

DE QUEM VEM A INFORMAÇÃO?

Convidado a passar um fim de semana na Estância do Junco, Rafael juntou a família e os trapos e se mandou para a fronteira, a bordo de seu sedã, novinho em folha. Aquele carro era coisa bonita de se ver e dirigir...
Não tinha nem mil quilômetros!...
A turma toda cantando, feliz por se ver livre dos tropeços e atropelos da Capital, antegozava os momentos de tranqüila aventura nos pagos distantes. Lá, poderiam andar e correr, livremente, sem a neurose dos assaltos e sem escoliose da angulação urbana. Que bom era ter um amigo assim, que proporcionava a beleza e a limpeza da maravilhosa nostalgia rural, com direito a alegres cavalgadas, divertidas pescarias e suculento churrasco. A vontade de chegar era tanta que, por mais de uma vez, a atenta esposa chamou Rafael no apito, pedindo que não abusasse da velocidade. Os pré-adolescentes, Rafaelzinho, Raul e Ritinha nem brigavam, apenas crivavam os pais de perguntas e indagações, quilômetro a quilômetro.
-         Está muito longe?
-         Que jeito tem o sítio do tio?
-         Lá tem televisão?
-         Tem onça, pai?
-         Não, meu filho. Lá não tem onça, tem cavalo, tem ovelha, tem vaca...
-         A gente pode andar de vaca?
E assim corria a viagem em busca dessa saudável e inesquecível alforria. Depois de cinco horas bem vividas no conforto do sedã estalando de novo, chegaram ao povinho, fartos de asfalto e tráfego.
Grossos pingos de chuva começavam a cair, justo no momento em que, ancorados no Posto do lugar, abasteciam o carro e a si próprios para, enfim, iniciarem a segunda etapa da jornada em busca da felicidade.
Rafael, munido de um detalhado mapa, carinhosamente rabiscado pelo primo, apenas quis confirmar a informação.
-         A saída para o Rincão das Carquejas é por aqui? – perguntou ao frentista.
-         É sim senhor. Vá sempre reto.
E assim foi. A chuva agora era mais forte. Quando entrou na estrada de terra o trote mudou. Uma escorregadela para esquerda, outra para a direita, foi rompendo o descampado, garbosamente, no comando do seu inigualável sedã. Que carro bom!... Tinha custado um sacrifício extra mas estava valendo a pena. Ainda faltavam trinta e tantas prestações mas carro é diretriz de liberdade e isso não tem preço.
E vá chuva! O barro corria solto e já transfigurava a pintura perolizada do carrão.
-         Pai, até parece que a gente tá no rali... – comentou, Raul, vibrando com a aventura.
A coisa não estava bonita mas valeria o sacrifício pelas benesses da chegada. Quando a estrada enfeiou de vez, bem ali no baixo do sangão, Rafael teve a ligeira intuição de que o destino fugia a galope, perigosamente. Um gaúcho emponchado, manejando seu tordilho vaqueano, vinha no sentido contrário, com o chapéu nos olhos, defendendo-se da enxurrada.
-         Por favor, amigo. Pode informar como está a estrada aí para frente?
-         Está buena.
-         Dá para seguir?
-         Eu venho de lá. Vá no mais...
E Rafael foi. Uma curva depois caiu no maior atoleiro. O sedã entranhou-se no barro e não mais se mexeu dali. Patinou, patinou e se enterrou de vez.
-         A roda sumiu, pai!
-         Cala a boca, guri!
-         O que vamos fazer, Fael?
-         Não sei, meu bem. Não sei...
Enquanto resvalava no lado, morto de raiva, tentando salvar o párachoque do sedã novinho, Rafael filosofava, em silêncio, para tentar confortar-se no infortúnio:
-         Quem está sobre quatro rodas jamais deve pedir informações de estrada a quem está sobre quatro patas...
E assim é, no úmido e no seco, hoje e amanhã, aqui e lá. Ou não?...

O DESPLUGADO

Voluntariamente, Alfredinho desplugou-se do mundo, tomou seu chá de alienação e sumiu. De uma hora para outra, não sabia, nem queria saber de mais nada.
Se perguntassem quem tinha ganho ou perdido as últimas eleições, dava de ombros, passava a mão na vasta melena e dizia, com certo ar de satisfação: - Não sei  nem me interessa...
Chegou ao cúmulo de não saber qual a novela mais pontuada na pesquisa. Não sabia, igualmente, qual o programa de auditório de maio audiência na TV. Desconhecia a última bobagem do governo e não tomou conhecimento do recente aumento de impostos. Estava completamente por fora das novas explicações oficiais da crise e sequer sabia que a mega-sena estava acumulada.
Da moda no vestir, não sabia absolutamente nada. Todos os dias vestia sua cala roxa de boca-de-sino, um par de chinelas esgarçadas, camisa de linho duro, óculos Ray-ban, chapéu panamá e andava por aí à toa, chutando paus e pedras, ao deus dará...
Aposentado juramentado, não sabia, ao menos, que estavam mexendo fundo em seus interesses. Fez questão de esquecer seu número do CIC e a senhora do cartão bancário. Preço da gasolina, do leite, do feijão, da cachaça, da aspirina e do cabaré, não sabia de jeito nenhum. Não sabia (vê se pode!) que era dezembro, o mês do Natal...
Fez questão de não lembrar que era pai de família, marido competente, vizinho presente, partidário aguerrido, torcedor apaixonado, sócio honesto, profissional graduado, consumidor alegre e contribuinte disciplinado.
Alfredinho não sabia que as bolsas tinham caído nem que as saias tinham subido. Não lia jornal, não ouvia rádio nem via televisão. Internet, fax, celular? – nem pensar... Não escrevia nem recebia cartas. Não jogava, não fumava, não bebia nem conversava.
Ontem, quando todo o mundo passou por ele apressadamente, para assistir a benção do Papa, perguntou ao poste: - Que Papa?...
Não cobrava nem pagava contas. Não dava nem recebia bom-dia, boa-noite e até-logo. Raramente falava, mas seguidamente assoviava. Sabem que melodia Alfredinho puxava no bico? Sabem? Era o “Risque”, consagrado pela potente e saudosa Nora Ney. “Risque meu nome no seu caderno”... Lembram?
Para pôr um termo final em seu voluntário desplugamento, Alfredinho resolveu limpar sua última conta no Banco. Guardaria seu dinheiro em casa, embaixo do colchão, à espera do Juízo Final que, por certo, não tardaria. Com muito esforço, correu à casa bancária e pediu o que era seu.
-         O senhor precisa preencher o cheque, seu Alfredo – disse o caixa, com gentileza.
-         Cheque? Que cheque?
-         Este aqui – disse o solícito funcionário, passando um cheque avulso ao confuso Alfredo.
-         Ah, sim... – balbuciou Alfredo, com olhar perdido.
-         Ponha a data, por favor.
-         Data? Que data?...
-         Sim – dia, mês e ano.
-         E que ano é hoje?...
-         98, seu Alfredo. Falta só mais um para o fim do século... – comentou o simpático atendente.
-         Século?... Que século?... – questionou o nervoso Alfredo, agora com audível rouquidão e visível tremor nas mãos e pálpebras.
-         Ora, o vinte! A porta de entrada para o novo milênio... – sentenciou, exultante o alegre cidadão atrás do balcão.
-         Que milênio?...
Choveu, ventou, passou.
Enquanto as pessoas correm para atender suas contas e compromissos, Alfredinho balança-se, comodamente, em sua rede de frente para o poente, esperando ver o sol ressuscitar. Enquanto tal não ocorrer, continuará ali, desplugado, sem nada para receber, sem nada para pagar...!
Alienado! – diremos todos. Livre! – dirão os deuses da circunstância, sentados nos tronos da conveniência e... da razão!

NO ELEVADOR

E por que estavam presos naquele elevador enguiçado, resolveram botar a conversa em dia, enquanto, esperavam providências.
-         A situação está difícil...
-         Qual situação – a do Brasil ou do elevador?...
-         As duas. Aliás, vendo bem, o Brasil está que nem este elevador – lotado e enguiçado...
-         A comparação não é justa. Nosso país tem espaço de sobra e há setores funcionando muito bem.
-         É verdade – funcionando à custa do sacrifício do resto. Mas, cadê o espaço?...
-         E para que servem esses milhares de quilômetros quadrados? Heim?...
-         Falo de espaços mentais, morais, intelectuais, funcionais – falo, enfim, sobre espaços humanos.
-         Como assim?
-         Claro. Cadê os empregos? Onde estão as oportunidades? Cadê o espaço da cidadania?... Cadê? Heim?
-         Isso é sofisma...
-         Sela lá o que for – a verdade é que estamos apertados como ratos em guampa...
-         Criticar é fácil...
-         Não estou criticando – estou apenas refletindo a realidade.
-         Calma, gente, é tempo de paz e parceria. É tempo de consenso...
-         Esse filme eu já vi...
-         Nós temos que dar um jeito de sair daqui, com urgência.
-         Do Brasil?...?
-         Não, do elevador, vivente.
-         E como tá ficando quente nesta baiúca...!
-         Calma, que a turma da manutenção já está providenciando o conserto.
-         Não confio nesses técnicos...
-         Na presente situação, não estamos em condições de não confiar. Temos que acreditar e esperar que a coisa ande.
-         Com isso é que não me conformo – esperar e acreditar – há anos fazemos isso...
-         E tem outro jeito?
-         Tem sim. Temos que instigar e provocar. Pisar no calo das pessoas para ver se reagem e tiram o pé deste marasmo.
-         Aqui dentro?
-         Não, no Brasil.
-         Já estou sem ar...
Nisto, ouve-se uma voz vinda ainda lá de cima.
-         Tenham paciência! Não se mexam! Já estamos providenciando o conserto. Procurem ficar no centro do elevador.
-         Tudo bem, vamos tentar. Essa é boa, esses caras estão de gozação. Quem vai poder se mexer nesta lata de sardinha...?
-         No centro! – repete a voz lá de cima.
Aquele elevador tinha encalhado por vários motivos mas, basicamente, por falta absoluta de manutenção. O problema que originara aquela pane específica provinha de um ligeiro e mero desencontro de vontades, uns apertaram o botão de subir e outros o de descer. O velho elevador, há tempos sem uma gota de óleo, não teve a mínima condição de administrar esse tipo de ambivalência e por isso atolou no meio de dois andares.
-         Esses caras vão deixar este troço cair...
-         Por favor, não seja tão pessimista.
-         É isso aí. Fica tranqüilo, a coisa é segura.
-         Segura, coisa nenhuma. Esse bando de incompetentes funciona na base da tentativa... do achômetro...
-         Aliás, como tudo neste País. Tudo é jogo, cara ou coroa, aleatório e festivo...
-         Ih, não vamos perder os cadernos. Vamos fazer o que o homem lá de cima pediu.
-         Mas não cabe todo mundo no centro!...
-         Tem que caber. Um pouquinho de boa vontade e logo a gente cai fora desta gaiola.
Deus te ouça...
-         Não bota Deus nessa.
-         Tem que botar, esse é imparcial e confiável.
-         Não sei não...
-         É sim, podes crer...
A voz lá de cima falou novamente:
-         Se abracem. Fiquem bem no centro. Vamos tentar pegar o cabo guia.
-         Não te disse que essa turma só tenta...?
Muito a contragosto, o pessoal se abraçou, foi para o centro e ouviu um ronco mais forte e sentiu um solavanco mais seco. A gaiola, enfim, acabou parando no térreo, a salvo.
Depois de duas horas confinados naquela geringonça, nem bem abriu-se a porta, saíram quase todos em atropelo, como bois brabos do brete. Cada um seguiu seu rumo sem se dar conta que o esforço conjunto tinha ajudado a resolver o impasse. A necessidade une, mas as circunstâncias egoístas do mundo moderno tornam a desunir. E assim será até o dia que não seja...
Quase todos saíram. Quase todos – lá dentro ficou um baixinho vestindo gabardine, com uma valise bem surrada na mão esquerda. Um dos técnicos responsáveis pela formidável façanha de salvamento, vistoriando o elevador, topou com o estranho passageiro.
-         O senhor não vai sair?
-         Não. Vou ficar.
-         Mas o senhor não tem medo?
-         Não tenho, não senhor.
-         O que o amigo pretende?
-         Quero subir. Depois quero descer. E depois subir...
-         Mas esse elevador pode entalar novamente...
-         Ótimo.
-         Como, ótimo? Não estou lhe entendendo. O senhor quer correr o risco de ficar preso de novo?
-         Quero. É melhor assim...
-         Como assim? Por que?
Porque estou desempregado e cheio de dívidas. Aqui, pelo menos, estou livre dos credores e alimentando a esperança de me contratarem como ascensorista... Subindo!... Descendo!... Entalando!...

O BAIANO

Conta-se que, um dia, caiu por aqui um bom baiano com família e tudo. Transferido por força de suas obrigações profissionais, veio beber a água do Santa Maria. Homem alegre, comunicativo, logo fez amizades e muitos conhecidos. Sem papas na língua, sincero, ia dizendo, aos quatro ventos, que a cidade era boa, a gente hospitaleira, o ar agradável, mas a comida sem gosto. Faltava pimenta na gororoba. Ah, que saudade da Bahia...
Como era possível sobreviver num lugar onde a comida não ligava a boca à memória? Como passar os dias (longos dias de sua transferência), sem as benesses da pimenta amiga? Por pura hospitalidade, era, seguidamente, convidado a almoçar um carreteiro ou jantar um espinhaço de ovelha. De volta em casa, comentava com a mulher:
-         O ambiente estava ótimo mas a comida era bem sem graça. E antes de enfiar os chinelos ainda completava: - Não sei como esta gente boa pode viver sem pimenta...
Conversa vai, conversa vem, essa história parou, um dia, nos ouvidos do tio Zeferino, homem sutil, inteligente e um dos esteios mestres da sociedade pedritense. 
Tio Zéfe rebolou a bengala e arquitetou seu plano. Como quem não quer nada, mandou matar um porco. Na beira da lida, determinou que se fizesse um punhado de lingüiças grossas e gordas. Fiscalizou o trabalho de perto até o fim.
Nas duas últimas voltas da tripa recomendou o preparo especial, mandou que se fizesse pimenta com lingüiça. Carregou na porção. Malagueta e outras foram prensadas num pouco de carne. A sobra da pimenta foi habilmente, colocada em conserva, nadando em azeite.
Com ar estudadamente distraído, aproximou-se do tal baiano e conseguiu trazê-lo para a sombra de sua casa, com simpatia e carisma. Aos poucos foi amansando o forasteiro, até convidá-lo para um jantar informal com a família.
Na noite combinada chegou o alegre baiano com a consorte e tio Zéfe foi logo oferecendo um quebra-gelo ou limpa-poeira. Cachacinha pra cá, cachacinha pra lá – foi botando lenha seca na fome do nordestino. Depois de alguma conversa e risos, convidou as visitas para passarem à sala de jantar. Na ponta da mesa, como um patriarca, tio Zéfe encarregou-se da partilha do prato principal. Ao visitante e esposa serviu generosos pedaços  da lingüiça brava. Justo aquela que ele, engenhosamente, tinha mandado carregar na pimenta. Aos filhos, à esposa  e alguns achegos serviu da outra ponta, com tempero normal. Serviu-se e seu gesto de levar um naco à boca deu a partida na cerimônia de mastigação. Mal tinha dado duas mastigadas, virou-se para a esposa, e comentou em tom repreensivo:
-         Onde estavas com a cabeça, quando encheste esta lingüiça? Enqueceste de botar pimenta?...
O baiano, que já engolira seu primeiro pedaço, amargava em heróico silêncio, o exagero da malagueta. Mas tio Zéfe, dando prosseguimento à cena combinada, continuou em sua teatral reprovação:
-         Mulher, esqueceste da pimenta, justo hoje que convidamos para jantar este nosso querido amigo, que vem da Meca do bom tempero... o senhor, por favor, desculpe a imperdoável falha da minha velha – nem sei o que dizer...
O convidado, atônito, meio sem jeito, já em processo de transpiração abundante, disse, sumidamente:
-         Não se preocupe, isso acontece – está muito bom este enchido...
Mas tio Zeferino ainda tinha uma última carta na manga, para concluir seu jogo:
-         Se o senhor me permite, pra remendar esse esquecimento, deixe que eu lhe sirva um pouco dessa pimenta que preparei. E antes que o pobre baiano esboçasse qualquer reação, pois já queimava em brasa, tio Zéfe derramou, fartamente mais pimenta no prato do infeliz.
Como que por milagre o convidado conseguiu sobreviver, com certa dignidade, à aprovação do jantar. O estrago tinha sido bem grande – é verdade – pois o nordestino não conseguia mais manter a lógica da conversa. Quando tio Zeferino comentou sobre a carestia dos tempos que correm, ouviu o baiano balbuciar qualquer coisa relativa a necessidade de eucaristia para os que morrem. Agradecido pela gentileza do jantar, o baiano ainda encontrou forças para levantar da cadeira, fazer-se entender pela mulher, e começar com as formalidades da despedida. Já na porta, com olhar um tanto desvairado, misturava agradecimentos, boa-noite e parabéns. Bem na saída o anfitrião lhe pôs nas mãos um pacote bem atado:
-         Esta é para comer em casa, junto com a patroa. O baiano segurou o inusitado presente como se estivesse com uma bomba nas mãos.
Agradeceu e tratou de enveredar para o caminho de casa antes que algo mais acontecesse. 
Finalmente, no aconchego do lar, ao abrir a porta da frente, viu passar uma barata. A mulher fez cara de asco mas ele nem para isso tinha forças.
-         Que bicho nojento – disse a esposa, torcendo o nariz.
-         Hum! Resmungou o coitado, com problema mais sério para resolver.
-         Dizem que bom mesmo para afastar esses bichos é pimenta do reino...
Não me fala nisso!... Chega de pimenta! 

PARA ESQUECER

A noite era chuvosa e fria e as horas soltas dançavam, tímidas, no pêndulo do velho relógio. Parece que, ao mundo, naquele momento, não estava outro remédio senão aninhar-se no poncho e descansar.
Descansar? A campainha tocou forte. Do outro lado da porta, um tipo de fisionomia mansa, coroado por roto chapéu, vestindo bombachas, um pé calçado e outro não, no pescoço, um lenço outrora vermelho fazia o alto relevo tosco daquela escuridão sem par. O hálito era de cachaça ordinária.
Ensaiou qualquer coisa parecida com “boa noite” que, na verdade, era uma breve e lacônica consideração, quase filosófica, sobre o rabo da minhoca. Perguntei o que desejava. Quase na diagonal, visivelmente grato, suspirou com dignidade e atacou:
-         Patrão, preciso de uns troco!
-         Ah, já sei, é para a cachaça, não é?... – perguntei, afirmando com censura.
-         Não senhô – é pra comprá vela – duas pra o velório – da véia minha mãe... – falou e disse, com tristeza bafejante.
-         Então, não é para o vício?
-         Não senhô! Deus que me livre...
-         Espera aí que eu já volto! – fui lá e busquei duas velas. Pronto aqui estão...
-         Ué, o senhô tinha?... – comentou, sem esconder a decepção.
-         Pois é, a gente sempre tem, com essas faltas de luz...
-         Pôs lê agradeço. Deus lê dê em dobro. Passe bem... – e saiu, daquele jeito, sumindo no breu da noite chuvosa e fria.
Voltei para o meu canto pensando no gaúcho, na vida, na chuva, na noite, no frio... Às vezes só bebendo para entender (ou não entender) o encantamento dessas grandezas que fazem tão frágil nosso existir...
Quando quase me consumia no remorso desse pensar, tocou novamente a campainha. Abri a porta e lá estava o gaúcho, mais molhado que antes, com as velas na mão e no rosto uma fisionomia matreira.
-         Patrão, desculpe lê estrová – nóis se enganemo. A véia não morreu – tá mais viva que saracura no banhado. Vou lê entregá as vela, sem servintia...
-         Muito bem – se não precisa delas... – e fui fechando a porta. Mas o gaúcho taita, como quem conhece os atalhos da comunicação humana, convidou de lá:
-         Amigo véio, bamo tomá uns trago?...
Reabri a porta e o coração:
-         Então era canha mesmo que o senhor queria?
-         É pra afogá o susto... – disse, com voz mansa, do alto de sua simplicidade...
Fiz o gaúcho entrar e bebi com ele até afogar sustos, idéias, razões e considerações. No meio desse insólito, fico pensando: - será que o povo brasileiro não anda por aí pedindo velas quando, no fundo, quer é beber uma cachacinha amiga, em paz?
Será que nossa gente não anda inventando a morte da mãe (pátria) só pra sensibilizar quem lhe dá uns trocados para o trago?
Que trago? Certamente aquele gole para esquecer a miséria que jamais abandona os viciados na esperança... E no amor por este chão.
Será?...

ESTAÇÕES

Com o sol a pino, torrando o pasto, a pele e o ânimo, lá vem o verão, pondo as pessoas para fora das tocas e o corpo para fora das roupas. Quase tudo tem sabor de festa que se espraia na preguiça da sesta e na lentidão dos gestos, que sempre se ajeitam nas dobras fofas, onde boceja um tempo de sedução e transpiração.
Verão que a andorinha não faz sozinha, evapora promessas sérias, seca desejos responsáveis, aclara circunstâncias comezinhas e cozinha propósitos que se esvaem em folias de um bissexto fevereiro de acasos.
Verão que as sacia nas águas de março, mas que ainda suspira em maio. Estação do descanso mais cansado que a humanidade conhece. Tempo de planejar e arriscar... Tempo de matar moscas, espantar mosquitos, pisar gafanhotos, evitar jararacas – tempo de perigar...!
E as noites?... – pegajosamente quentes – como se fossem caramelos lambuzados nas mãos das crianças choronas – enchem os baleiros de nossos segredos, na prateleira dos medos...
Um pingo de suor ardido, escorrerá pela testa libertada da esperança para que uma lágrima agridoce não caia pela face da desventura aprisionada. Esse é o verão de nosso interior, repleto de sons, cheiros e cores, particularmente universais, sob sol torrente, que a santa sombra nos proteja, fechando seu ciclo ardente de magia e graça. O verão passa, verão. Verão?...
Quando as folhas se soltam das árvores, naturalmente, e uma brisa cristalina e fria ruboriza as bochechas da lua, vem chegando o outono, com sua riosa mochila de desafios.
Despenteia o plátano e amadurece a laranja. Arrepia os pêlos mas alisa as intenções. Bate no bordão mas afina o lá da viração... Tempo claro e limpo para pensar e prometer. Estação que faz germinar a saudade. Ah, que saudade! Outono dos alpendres e dos oitões, dos ritos e das canções...
Folhas mortas de ilusão – varridas para dentro do coração – amontoam-se no pátio das paixões... outono, outono... Passará!
A porta dos fundos treme. Um cachorro esconde o focinho da raiz da cauda. O tamanco bronco quebra a lâmina do gelo tosco, um vento. É inverno e o espinilho seco arde na lareira farta dos apaniguados. Um trapo mofo e curto espanta a morte enquanto as mangas do aperitivo barato defendem os braços de quem labuta por necessidade. A neve branca sugere paz mas o tempo é de guerra.
Inverno que campeia, alucinadamente, sua rima do inferno, esfriando a vida e congelando a vontade. Estação do vinho, do vizinho, do quentão e da sofreguidão. Ou não?... Tempo da moda. Moda de um tempo insano que se congela no minuano. O rancho pobre espicha o cobertor curto por que Deus manda. O palacete manda e não pede. Na varanda alguém se protege, mas no descampado alguém afronta. É inverno – tempo de luvas, casacões, camisetas, mantas e mantões. Um resfriado crônico, ou uma consciência aguda fartarão essa estação do sofrer. Hão de ver e crer que mais um “inferno” passará e a vida viverá.
Quando a begônia falar, o salso brotar e a rosa desabrochar, chegou a primavera. Essa irmã predileta de todos nós, cujo sangue quente corre solto pelas veias da natureza e da fantasia, inundará nossa alegria de viver e conviver. É tempo de vento e fermento.
Uma euforia, sem parar, pousará de flor em flor, fecundando a grandeza de nosso ser e fazer. A palavra, o ato, o pensamento, o cio e o comportamento são plenos e verdadeiros. É estação de realizações... Prima Vera, que bonita és, e que belezas me despertas! O vento que despenteia meus cabelos é o mesmo que levanta tua saia... O doce calor que aquece minha alma é o mesmo que esquenta o teu querer. Sejamos práticos – dois pra lá e dois pra cá, porque o tempo é de união. As flores que colhemos hoje são as prédicas que plantamos ontem. Tudo germina e tudo cresce porque é primavera, enfim...
Estações e estações. Conceitos e conceitos. De tudo fica um pouco...
Vendo bem, ficará o incomensurável conceito de então – alguém partindo no terminal dos trens, alguém chegando na estação dos ônibus.
Gente voando, gente navegando – estações testemunhando idas e vindas sem fim porque sempre será tempo de chegar ou partir, por amor ou solidão...
E, de novo, lá vem o verão – olha o trem...!

O SEQÜESTRO

Durante anos, bateu de porta em porta e só recebeu “nãos”.
As editoras, uma a uma, gentilmente recusavam o calhamaço de “contos e crônicas” de Boaventura, um escritor semi-surgente que só queria mostrar ao mundo a fibra e o sentimento de suas histórias, tão simples quanto originais.
Dia a dia, via esvair-se seu sonho literário, obra e graça de uma vocação quase natural que inquietava sua alma e circuitava seus neurônios.
Desde menino gostava de escrever...
Certa vez, estimulado por dona Verônica, a professora primária de estimação, escreveu bela redação sobre as “férias no sítio do vovô”, recebendo diversos elogios, coroados por estalados beijos, lambuzados de batom. Com as faces vermelhas de emoção e... batom, resolveu que, um dia, seria grande escritor, conhecido de norte a sul, lido por todos, para bem geral e sagração especial da literatura. Um dia...
Tinha lindas histórias para contentar todos os gostos.Escrevia como falava e falava como vivia. Vivia a espera de uma oportunidade generosa. Mas essa não chegava e não chegava... Queria apenas um livrinho simples – coisa singela – que ao menos chegasse às tendas das feiras para agradar o povo e, se possível, acampar na praça dos críticos.
Precisava saber se suas histórias valiam ou não valiam... Escrever para não ser lido era tanto quanto apenas beijar o vento ou fazer cócegas em si mesmo – não tem graça... nem arte.
Os anos passavam e sua missão não se cumpria. Na falta, então, de ocupação mais interessante decidiu credenciar seu velho Fuca no contexto dos táxis nossos de cada esquina.
Escritor por vocação e taxista por ocupação circunstancial, sentia um vazio dentro do peito, sabendo que isso era tudo que queria na vida.
Um dia seria lido! Um dia...
De tanto circular, certa feita bateu de cheio no para-choque de seu próprio destino. Transitando os restos vespertinos de um sábado solto, parou para recolher um sério passageiro, bem ali no cruzamento daquela com aquela outra.
-         Para onde vamos, doutor?
-         Para a Biblioteca Pública.
-         Será que está aberta?
-         Claro. Estamos lançando um livro hoje lá.
-         O senhor é escritor?
-         Não. Eu não escrevo – apenas edito.
-         Ah, o senhor é um editor?...
-         Sou.
-         Sabe? – eu gosto de escrever, não me leve a mal...
-         Que bom...
-         Escrevo desde menino...
-         Que ótimo!
-         Sua editora não gosta de novos talentos?
-         Gostamos. Mas nem sempre se faz o que se gosta...
-         Ah, pois é...
E assim morria, inapelavelmente, na secura do editor, a conversa quase esperançosa para Boaventura.
Sinais fechados, curvas para a direita, outras para a esquerda, tráfego trancado. Boa manobrava a contravenção de mais um “não” na via da vida.
Foi então, que uma inspiração extra buzinou em seus ouvidos.
Ágil, guinou o Fuca para a esquerda e tocou.
-         Para onde vamos? – questionou o assustado editor.
-         Para a Biblioteca, doutor.
-         Mas, por aqui...?
-         É um atalho. Pode confiar...
Andaram por altos e baixos até que o carro afogou.
-         O que houve?
-         Afogou, doutor.
-         E agora, o que se faz? Já estou queimado no horário...
-         Agora a gente desafoga e logo estaremos lá. Fique calmo...
-         Calmo? O quê vou dizer? Estão todos só me esperando...
-         Fique tranqüilo – eu conheço bem os macetes deste Fuquinha...
-         O senhor quer ajuda?...
-         Não, não se incomode – já, já saímos daqui.
-         O senhor tem certeza de que não quer uma mãozinha?
-         Bem, já que o doutor insiste, segure e chave de fenda enquanto eu dou a partida.
-         Pronto.
-         Lá vai...
-         Ih, pode parar! Saltou óleo na minha roupa...
-         Puxa, que desastre! Fique tranqüilo – tudo se conserta...
-         Mas como vou chegar assim na Biblioteca?...
-         Não vai. A gente dá um jeito.
-         Que jeito?...
-         Venha comigo.
E entraram numa casa humilde bem ali na frente. Lá dentro a algazarra da criançada era de ensurdecer. No canto da sala, confinadas junto à televisão, diversas senhoras falavam ao mesmo tempo enquanto bocavam formidáveis pedaços de bolo, farto em merengue.
-         Vá passando, doutor. Não repare – a casa é modesta mas o coração é grande...
-         Onde estamos?
-         Na minha casa – veja que coincidência...
-         Coincidência?...
-         Carlinda, este é o doutor editor.
-         Muito prazer.
-         Prazer, Dr. Rivaldo...
-         Por favor sente...
-         Obrigado, senhora, mas não posso – tenho um compromisso agora e já estou atrasado...
-         É isso mesmo, Carlinda, o doutor tem pressa. Entramos aqui só para ele tirar essa mancha de óleo no terno.
-         É pra já – deixe comigo. De manchas de óleo eu entendo. Só que...
-         Só que o quê?...
-         Desculpe, mas o senhor terá que tirar as calças...
-         Tirar?...
-         Isso. É coisa rápida. Fique à vontade...
-         Aqui?...
-         Passe para o quarto, doutor. Fique calmo que tudo se resolverá.
E assim aconteceu. Lá dentro, em trajes menores, o poderoso Dr. Rivaldo tentava controlar os nervos.
-         Olha o bolinho...
-         O que é isso?
-         Um pedacinho do bolo de aniversário da minha filha Dulcinéia – está fazendo quatro aninhos... Coma, doutor – fique tranqüilo...
-         Mas não precisava...
-         Vai uma guaranazinha? Heim? Com ou sem?
-         Com ou sem o quê?
-         Um pingadinho de uns 12 anos que o compadre Alcebíades me trouxe lá do Paraguai.
-         Com, e seja o que Deus quiser...
-         Assim se fala, Dr. Rivaldo!
-         “Parabéns a você, nesta data querida...”
-         Não leve a mal – é a hora das velinhas. Criança não perdoa – tem que ter velinhas...
-         É verdade – meus filhos também não abrem mão das velinhas.
-         O senhor tem filhos, doutor?
-         Tenho. Dois. São bem travessos.
-         Mas são uns amores, não é Dr. Rivaldo?
-         Quando estão dormindo...!
-         E sua esposa, gosta de crianças?
-         Sim e não. Ela é meio braba.
-         Não diga...!
-         Saindo uma calça novinha sem manchas...
-         Saiu mesmo. Mas está molhada...
-         É, mas seca logo. Enquanto isso, a torta de galinha – está uma delícia...
E assim corriam as horas e nada do Dr. Rivaldo ver-se livre daquele “inocente” e cordial cativeiro para, então, comparecer à Biblioteca para o lançamento de mais um livro de sua progressiva editora.
-         Mais um guaranazinho?
-         É, mais um! Duplo!... – disse Dr. Rivaldo, jogando a toalha.
Pelo andar dos acontecimentos passaria aquela noite e mais outra e as coisas, mesmo que andassem, não saíam do lugar. Intimamente, deu-se conta de que estava solenemente seqüestrado. E não podia reagir não era caso de polícia.
Era preciso inteligência e arte para sair da arapuca.
-         Boaventura – chegue mais perto – qual o preço do meu resgate?
-         O que é isso doutor? Resgate?
-         Nós dois sabemos do que estou falando...
-         Bem, já que o doutor insiste...
-         Diga sem medo – eu pago.
-         Livros...
-         Como?
-         Isso mesmo – publique meus livros.
-         Tá fechado. Mas tem uma condição...
-         Qual é doutor?
-         Que tu escrevas esta história na primeira página do teu livro. Só assim poderei explicar aos convidados e à minha mulher o que aconteceu nesta noite. Feito?
Feito. Vai mais uma tortinha?...

OS LIMITES DA FÉ

Senhor!
Não creio mais do que crêem os olhos dependurados na janela da miséria, nem menos do que crêem as mãos bondosas que do arado ao dorso amado, são o palmo que mede a grandeza do ser. 
Não creio mais do que crêem os donos do suspiro remendeiro de mágoas sem donos, nem menos do que crêem os pés que, na terra, se converteram na possibilidade de mais ver.
Não creio mais do que crêem as vísceras que visceram amor e ódio, nem menos que o peito nidificado para o prazer da vida.
Não creio mais do que crêem os possuídos do segredo de possuir, nem menos do que crêem os patrões da razão do existir.
Não creio mais do que crêem os filhos da dor e do medo, nem menos do que crêem os irmãos da fartura e do contentamento.
Não creio mais do que crêem os que vingaram a morte do silêncio, nem menos do que crêem os que se lavam na luz clara e limpa do entendimento.
Não creio mais do que crêem os aprisionados pela mentira e a dúvida, nem menos do que crêem os que gozam o conforto da verdade.
Não creio mais do que crêem os castigados pela doença, nem menos do que crêem os abençoados pela saúde.
Não creio mais do que crêem os que necessitam escancarar as portas da guerra, nem menos do que os que semeiam a paz e a prosperidade.
Não creio mais do que crêem os afogados do pranto, nem menos do que os espontâneos do riso.
Não creio mais do que crêem os escolhidos da luta, nem menos do que crêem os prometidos da festa.
Não creio mais do que crêem os alucinados que calculam, nem menos do que os apaixonados que poetam.
Não creio mais do que crêem os que hão de vir a morrer, nem menos do que crêem os que acreditam viver eternamente.
Creio, porém, mais do que todas as palavras que meus lábios podem pronunciar e menos do que todo o perdão que meu coração possa carregar.
Por isso, Senhor, crendo mais do que a minha capacidade de dizer e menos do que minha força de sentir, te peço, humildemente, crê em mim – mais do que todo o amor que eu possa repartir e menos do que aquela prece, que um dia, não poderei calar...
Obrigado, Senhor!