terça-feira, 17 de maio de 2011

EM NOME...

Quem pensou que Dom Pedrito estivesse sozinha no mapa, enganou-se. De uns dez anos pra cá, a fúria emancipatória fez surgir uma série de novos  municípios Brasil a fora. Leio e constato a existência de uma cidadezinha gaúcha denominada Dom Pedrito de Alcântara, surgida, recentemente, nessa alucinada leva emancipatorréica... (essa palavra existe??) Deveria...!
E como se chamam os moradores desse  lugar? Seriam os “Dom Pedritenses” ou os “Alcantarenses”? Ou serão os Pedritanos ou Alcanterídios?...
Indagações à parte, vale a pena conferir a porção de novos e intrigantes nomes que povoam o novo Rio Grande. E todos elegerão prefeitos e vereadores no próximo três de outubro.
Gentílicos de todos os tamanhos e para todos os gostos, serão habilmente, descascados pelos políticos em seus acalorados discursos de “convence povo”.
Os antargortenses, os ipesianos, os passasetenses e os sagradanos familienses, das respectivas Anta Gorda, Ipê, Passa Sete e Sagrada Família, terão muito o que ouvir nesta eleição. E como responderão os eleitores de Chuvisca, Mato Leitão, Rolador, Relvado e Muitos Capões?... Quem nasce em Muitos Capões chama-se como ou o quê?... Caponada? Rebanho? Tropa? O certo é que tal dúvida não há de empanar o entusiasmo dessa boa gente na escolha de um prefeito pastor ou pastor prefeito...
Mas, tem mais – tem município chamado Alegria e outro chamado Sério. Tem um denominado Mormaço e outro denominado Boa Vista do Incra... E durma-se com um barulho desses...
Para não cometer injustiça não poderei omitir o Mato-Castelhano, o Novo Machado, o São José dos Ausentes e o escorreito e bem posto Benjamin Constant do Sul...
Em destaque vem o município de Tio Hugo. E como ficará o mundo se os “tio huguenses” fecharem questão?... Que questão...? Ora, a questão do tudo e do nada ou do pino da granada... Que diferença tal fará em Roma, Paris ou Badra...?
Queiramos ou não, esses são os meandros (brasileiros) da democracia de resultados. Que resultados? Para quem vai a vantagem? Na base da conta, tem soma, multiplicação e divisão armando a equação de uma  cidadania mínima sobre interesses máximos para uma  resultante prédica. E a subtração? Essa fica por conta dos tributos gerais e das falcatruas particulares... Se alguém chegasse, de surpresa, em nosso mundinho, perguntaria, atônito: - “Por que tantos nomes se o por quê é anônimo?
Se alguém se sentir incomodado com tanta perguntação, que vá morar em Quinze de Novembro – município próspero, altivo e valoroso. Se, ainda assim, não estiver satisfeito, que pule um número e vá buscar abrigo na “dezesseis de Novembro”, bela cidade, acima de qualquer suspeita histórica, política e... matemática!
Seja qual seja (ou for) o nome, estamos todos no mesmo barco e sob o capricho da onda – circunstância, que nos empurra para uma praia de iguais. Nessa enseada comum haveremos que armar as barracas das diferenças que, enfim, nos igualam ao nome da... em nome do... em nome de...!
Até quando? Por quê?...

UM POUCO

Do todo sempre resta um pouco e o pouco que resta bastaria para fazer grande o mundo e maior a humanidade. Senão vejamos.
Não é a enxada que verte poderes milagrosos ao agricultor e sim sua competência de produzir que o faz indispensável na difícil empreitada de prover. Não é o hino, nem a bandeira, que fazem a virtude do patriota e sim sua sincera vontade a favor das causas justas de sua Pátria, que gera a luminosa postura de legítima liderança e útil convivência.
Não é a forçosa circunstância coletiva que identifica e classifica o cidadão e sim a clarividência  de sua iniciativa de serviço ao próximo, que qualifica e justifica sua ação de ser, fazer e revolucionar.
Não é o lustro da batuta que faz brilhante o concerto e sim a alma e o enlevo do maestro e dos músicos que tornam imortal a melodia.
Não é a fria fórmula do medicamento que resgata a vida e reforça os contornos da existência e sim a humanitária dedicação do médico que sara as feridas, amaina o sofrimento e repõe o sol da saúde na cabeceira dos moribundos.
Não é a tosca ferramenta que ergue a obra e sim o esforçado trabalho do construtor que a faz real, sólida e permanente.
Não é a cartilha que gera a educação e sim a dedicada consciência do professor que promove o elucidamento.
Não é o breviário que encurta nosso caminho para Deus e sim a liderança do pastor e a força de nossa fé que fazem reais as sendas da caridade e verdadeiras as estradas da esperança.
Não é o pincel que dá beleza ao quadro e sim a emoção do pintor que a colore de vida e paixão.
Não é o brilhante e caro anel que ergue os castelos do amor e sim o sentimento arrebatado do amante que exige as fortalezas do afeto.
Não é o forno que faz o pão e sim o diletante trabalho do padeiro que regenera a essência de nosso provimento material.
Não é a métrica que faz a poesia e sim o ânimo libertário do poeta que rima ensejos com desejos.
Não é a barba que faz o sábio e sim sua justa razão, mesmo imberbe, que faz a certeza do caminho e o caminho da certeza!
Não é o nariz vermelho que faz a graça do palhaço e sim seu dedo mingo, cheio de magia e arte, que aponta para o reino do riso.
Não é o texto que cria e anima verdades no coração dos leitores e sim a própria inspiração das pessoas, que faz legível o escrito e válido seu sentimento.
Do todo, um pouco para que reste um tanto para não faltar um muito e não sobrar um quanto...
 Quando?... Onde? – Aqui! Hoje um pouco – cada dia um tanto!

A CRÍTICA

Das histórias de D. Pedrito antiga, gosto muito de uma que conta a passagem de dois compadres, que vinham pela estrada do Ponche Verde, lá pela década de 40, a bordo de um Modelo A, ou coisa que o valha. Lá pelas tantas, disse o que vinha de passageiro, para o que estava no volante:
-         Mas tchê, tu não consegues nem enxergar os buracos!
-         É, e tu enxergas porque não vens manejando!
Tirando o conteúdo anedótico do causo, cabe em qualquer e sob os mais diversos pretextos, uma ilação sobre o teor crítico do incidente.
Vejam que o motorista dava-se por satisfeito, a braços com tarefa tão complicada que era a de guiar. Ao passageiro sobrava tempo e atenção para observar os solavancos. A exaustiva e exclusivista incumbência da pilotagem era ação quase sobre-humana, que ocupava todos os sentidos e exigia heróica destreza. O outro, apenas um passageiro sofrendo, solidariamente, os incômodos percalços da estrada, adensados pela intrepidez do motorista, reclamava, em altos brados e alguns galos na testa, a direção perigosa.
A lição que fica e ficará é a de que a crítica sempre estará mais à mão de quem não tem as mãos ocupadas. E não há mérito nem demérito nisso. É um fato da vida, do mundo e das circunstâncias. E, observem, bem atual e sempre universal. Se transportarmos a história para nossa relação com o Poder Público, por exemplo, veremos que tudo se encaixa. Tantas e tantas vezes reclamamos do piloto dessa mau incauta chamada Administração, quando, na verdade, a máquina é ingovernável, numa estrada tão ruim. Sejamos, no mínimo, tolerantes ou atentos e ativos co-pilotos, ajudando na travessia, em nome da boa chegada e contra os maus torcicolos...

RECEITAS LUSITANAS

“Pão de hoje; carne de ontem
e vinho de outro verão, fazem o
homem são”.
        
         Meu avô, português, com quem convivi, fraternamente, até a penúltima dobra de minha adolescência, sempre cultivou respostas lúcidas para indagações febris. Como bons amigos, seguidamente trocávamos conversas úteis, francas e afetivas. Uma distância de quase sessenta anos no tempo cronológico, era quase insuficiente para criar diferenças ou levantar barreiras nesse relacionamento, que hoje invoco com tanta saudade.
         Falávamos de política, economia, religião, custo de vida, saúde, comidas, desmandos governamentais, progresso de Portugal, atraso do Brasil – filosofia teórica e prática – e coisas do dia a dia...
         Raramente falávamos de futebol! Tal rareza encontrou seu ponto extremo na Copa de 66, quando nossa Seleção perdeu, fragorosamente, para a equipe portuguesa. Evitamos o assunto para desviarmos prováveis incômodos e desconfianças. De carnaval, não falávamos, mas sempre coloquei ouvidos para apreciar, em silêncio, sua opinião, rigorosamente crítica, a respeito dessa festa, de muito gasto e pouco proveito.
Fundidas à imagem desse amigo, estão as tiradas, as observações, as críticas, as opiniões, os conselhos, as espontaneidades e as indefectíveis receitas, tão lusitanas na forma quanto humanas no conteúdo. Nascido na região de “Trás os Montes”, província de Mirandela, a um palmo da Espanha, aprendeu a fermentar a folclórica rivalidade com os fronteiriços. E para dizer sem rebate, sentenciava: - “Da Espanha, nem bons ventos nem bons casamentos”. A quizila histórica era de fundo cultural ou circunstancial, certamente.
Mas tão antiga que não valia a pena saber a origem.
“Um bom genro – beije-se-lhe os pés”.
“Nada mais caro e perdulário do que o desnecessário”.
“Para um bom vento há sempre um mau tormento”.
Sabedoria fácil, direta, objetiva e ligeiramente ousada que me passava sem custos e condições. Certa vez, saímos pela cidade pesquisando preços de pedra de isqueiro. Se alguém se choca com a diminuta valência dessa missão, que não esqueça que toda a areia da praia é feita de grão em grão...
“Ora, não me venhas de borzeguim ao leito” – costumava dizer para neutralizar a chatice de certos assuntos ou atitudes que vêm à tona em hora imprópria.
Sentado de costas para o vazio, olho, com mansidão, as marcas que o tempo fez. Encontro nelas o contorno da promissão e vários riscos que a vida e a imensidão rascunham de graça ou por vocação.Olho o espaço e vejo todos. Olho o tempo e vejo tudo. Para que eu olhe e sempre veja, comerei o pão de hoje e a carne de ontem, regados pelo vinho do outro verão. Só assim poderei alimentar a esperança de quem, um dia, outros verão...

PENDENGAS

Carregando um pesado e incômodo gesso na perna direita, Josias resolveu cobrar do pedreiro a indenização pelo prejuízo. Acontece que o bom Josias quebrou a tíbia justamente no banheiro, ao escorregar no sabonete, em plena segunda-feira. O fato é que a saboneteira de seu Box, colocada de maneira displicente, facilitou a queda do sabonete que por sua vez patrocinou a escorregada, que então provocou a fratura.
Alguém já conferiu essas saboneteiras de parede colocadas dentro do compartimento do chuveiro? São um desastre. Sabonete usado ali não pára, nem que a vaca tussa.
E agora, o atento e querelante Josias, cobrava na Justiça a capenga conta de sua quebradura. E tinha boas chances de ganhar em todas as instâncias pois, para sorte da causa, juiz e promotor padeciam de mal semelhante, oriundo de conduta profissional culposa. Mas, afinal, onde estava o pedreiro facínora? Ninguém sabe, ninguém viu... Comentam que o pobre diabo morreu semana passada vítima de escorregão maior – simplesmente não conseguiu equilibrar-se no escasso fio de sua aposentadoria.
Ladislau quer processar o desenhista dos bancos do ônibus. Diz, e prova, que sua dolorosa escoliose provém da absoluta falta de ortopedia desse cômodo colocado, compulsoriamente, para uso e abuso de trabalhadores de baixa renda e altas obrigações como ele. Mas cadê o desenhista? Existe um desenhista? Quem saberá?
Pandolfo promete levar aos tribunais o fabricante da brilhantina. Diz e afirma que essa dita cuja alquimia é a grande responsável por sua formidável e brilhante calvície...
Careca de saber que sua gagueira vem do susto causado pelos noticiários sensacionalistas, Godofredo quer acionar a imprensa.
A unha encravada de Jasmim teve causa e origem no tosco e mal fabricado sapato da “Leva e Trás”.
Quem não sabe que as cáries de Jorginho foram provocadas pela ineficácia do dentifrício “Só Riso”?
E os pesadelos de Glorinha, quem não sabe que foram causados pela goma de mascar “Blou apel”?
Marianita quer seus direitos, ao perder o amor de Lindolfo por quilos a mais em razão daquele feijão abusado.
Quantos problemas... Quantas pendengas... O mundo só sabe brigar! Que útil seria se fôssemos mansos e compreensivos...
No tempo e na boa vontade, tudo se resolverá! Para que questionar? Sejamos pacientes. Seijammmoos paiccieentes. Oppa. O que há comm eesta makquina? Queero meeus dirreitos. Aos tribunais! Euu processo!

DEDAIS

Depois de várias tentativas, Rosália conseguira passar a linha pelo diminuto buraco de sua velha agulha. Olhos cansados, mão trêmula e luz velada, fazem penosa a tarefa costureira. Um cerzido aqui, um cosido ali, ia tecendo sua sovada solidão, atrás dos óculos turvos, do dedal amigo e das pantufas encardidas.
Gileu, o gato, agora pardo, gastava a rapa de sua sétima vida felina, sonhando com os ratos do porão. No fogão, ainda ardia o cerne daquele espinilho que Chico arrastara da tapera. Lá fora, a noite, qual manto surrado, furado de frias estrelas, caía serena sobre os ombros do pálido dia vencido. Dentro, a heróica Rosália ponteava sua treinada agulha, remendando os trapos da angústia, cosendo os andrajos do silêncio...
Agulha vai, agulha vem – quanto pensar para coser um bem!...
Maria perdeu seu filho. Que mais teria perdido Maria, se não tivesse filhos? Duas voltas de linha grossa nesse botão, para que não se despregue outra vez.
Pedro não achou sua lavra de ouro. Que ganharia Pedro, garimpando ouro, se a humanidade já se vendeu por esmeraldas? Um nó cego no cerzido para que não se rompa de novo.
Sem fé, o mundo está perdido. Sem mundo, o que seria da fé? Passa a agulha no pano grosso, com força, mas segura com o dedal pra não espetar o dedo.
Mais vale um pão na boca do que muitos na ilusão... A fome é um invento ou um descobrimento? Esta meia tem muito mais furos que tecido. Mais valerá comprar uma nova. Quanto custará? Nada menos que trinta e três remendos.
A amizade não tem limites. A inimizade também não. O colarinho não presta mais. Será preciso tirar o bolso para servir de gola. O que vale mais – o colarinho ou o bolso?...
Quem não come morre. Quem come também. Quem sacia a fome da morte? Quem?
Agulha vai, agulha vem – um dedal detém...
A felicidade está onde a pomos. Onde a pomos?
Onde está o carretel que estava aqui? Sai pra lá, Gileu!...
As linhas da mão mostram o futuro e as da testa o passado. Dizem que o destino é quem faz os traços da mão e é feito pelos da testa. Dizem...
Ih, escapou a linha, outra vez. A saudade é a filha mais velha da loucura. Ou será o contrário?...
E a paixão, o que é? E a velhice o que é?
Coser é preciso – perguntar não é.
Costurar e costurar sem parar – a barra da calça vadia, o botão do doutor, o carpim do padre, o véu da noiva, a farda do sargento, a asa do querubim, a saia da solteirona, a camisa do detento, a bandeira do Divino, o lenço do chorão, o manto da viúva, a máscara do palhaço, o cobertor do vivente, o terno do ausente, as pregas da emoção, botões da razão – retalhos do coração.
Agulha vai e vem – um dedal detém...
Quem costura minh`alma? Quem cerze meu coração?
Quem remenda meu bem e meu mal – sem usar dedal?...
Esta colcha está comida de traças mas aquele lençol esfarrapou-se de amor!...
Quem arranca minha dor? Quem conserta minha solidão?
Quero linha branca. E preta também. Onde estão os botões? Cadê o dedal? Quantos camelos, pelo buraco, passarão?
Coser é preciso – perguntar não é...
Sai pra lá, Gileu... Sai!

SE NÃO ME FALHA...

Quem já não teve tropeços de memória? Sim, aquele “branco”, justo quando se quer lembrar o nome de um amigo, um número de telefone, o compromisso inadiável, a conta para pagar, o aniversário, o horário, a fisionomia, a chave, documentos, momentos, a dentadura, o olho de vidro, a aliança, o colete, o verbete, o guarda-chuva, o endereço, o recado, o pecado, a história... Ah, essa memória que nos tortura!
Quem já não teve aqueles famosos lapsos inoportunos, no discurso de improviso, no encontro casual, na prova valendo nota, no cadastro valendo nada, no telefonema valendo tudo? Quem?
Segundo estudos de técnicos americanos, só o bicho homem tem a inigualável faculdade de esquecer ou de não lembrar. Alguém, por acaso, conhece vaca esquecida? Jacaré esquece? Saracura tem a capacidade de não lembrar? Os animais não esquecem, daí porque a justa comparação quando alguém se salienta na arte de tudo lembrar – esse tem memória de elefante...! Vá que seja!
Na média, somos todos um alegre bando de esquecidos.
Análise mais acurada do assunto exigiria alguns reparos sempre úteis para o perfeito entendimento da espécie humana. Na verdade, existem os desmemoriados e os distraídos. À primeira vista parecem vinho da mesma pipa mas, justiça seja feita, são bem diversos na soma total das parcelas.
O esquecido é isso por isso mesmo, e o distraído é o que geralmente lembra errado.
O primeiro, se não lembra, não diz. O segundo, porque nunca lembra, sempre diz as coisas mais disparatadas possíveis. Diz e faz...!
Certa vez, armou-se discussão em torno de um caso bem estranho: Um sujeito que foi ao baile e esqueceu a mulher em casa. Esquecido ou distraído?
“Pura distração”, dizia um grupo, “esquecimento puro e simples”, dizia outro. “Esse é um caso de legítima desmemória”, argumentava um dos debatedores. “O distraído autêntico jamais cometeria essa gafe, iria ao baile, só que com a mulher errada...!”
Debates à parte, todos sabemos o drama que é esquecermos o que deve ser lembrado.
Para tudo há remédio, dizem estudiosos do tema. Há maneiras e artifícios para baixar, consideravelmente, a estatística do esquecimento. Aconselham os práticos que se anote tudo em uma agenda. Dia, hora, o quê, quem, onde, por quê, tudo. Não tem erro desde que não se esqueça a agenda. Não é raro toparmos, diariamente, com uma legião de fantasmas, com olhar perdido, à caça desesperada de suas próprias agendas.
E hoje temos as moderníssimas agendas eletrônicas, verdadeiros prodígios da tecnologia, tão difíceis de manusear, tão fáceis de perder. Há quem diga ter visto uma novinha em folha, dormindo alegremente na geladeira, bem ali na prateleira das saladas. Pior se estivesse no forno...
Não é consolo, mas, vendo bem, todos, um dia, já mastigamos esse contratempo. Todos! Já os esotéricos recomendam recurso bem mais resolutivo para a questão. Sugerem o denominado artifício do “terceiro elemento”. O adequado “adorno referencial”, para onde convergiria a energia emanada do esforço de lembrar, faria a grande diferença na hora H do “tilt” da memória. Uma fita no dedo, uma melancia no pescoço, uma pedra no bolso, uma corrente de cachorro na cintura, uma nota de cem dólares colada na testa, uma jibóia enrolada no braço, um tamanco holandês no pé esquerdo, um lambari dentro da pasta, uma fotografia da Tiazinha no pára-brisa e outra do Ministro da Fazenda na carteira, são maneiras infalíveis de sempre lembrar e nunca esquecer.
Lembrar o quê, mesmo?...
Ah, som! Lembrar de não esquecer...

ORDEM E MÉTODO

Tenho um amigo realmente ordeiro. Na casa tudo está em seu devido lugar. Os livros na prateleira, as camisas no camiseiro, a manteiga na geladeira, a tinta no tinteiro, o dinheiro na carteira, o cigarro no cinzeiro, as galinhas no galinheiro, os filhos no travesseiro e a esposa... (onde está a esposa?) – a esposa, sua copeira predileta, está na soleira, de braços abertos e beijoqueira, ajudando a passar a limpo, com amor e graça, mais um dia de santa ordem e abençoado método.
Tenho outro que não reza pela mesma cartilha. Na casa desse as coisas estão em algum lugar. Há livros na geladeira, a manteiga esteve no camiseiro e também na carteira, tem tinta no travesseiro, um cigarro achou algum cinzeiro e na soleira tem dinheiro. Os filhos estão na estrada, as galinhas no vizinho e a mulher na prateleira. A ordem dos fatores pode não ser exatamente essa, mas isso pouco importa, pois nada altera o resultado. Resultado? – Meus dois amigos são felizes, cada um à sua maneira. E o pior é que, seguidamente, convivem, em terreno neutro, sem qualquer arranhão.
Dizem os entendidos, que ordem e método configuram uma disposição especial do espírito tendente à perfeição, à transcendência, ao nirvana, etc...
Paulo Mendes Campos contou o caso de um indivíduo que fazia tudo, banho (que banho!...), vestia-se, tomava café, lia jornal, despedia-se dos serviçais e rumava para o batente. Certa feita, foi cruelmente atropelado pelo bonde na frente de casa. Ele agia e se comportava com ordem mas o bonde, infelizmente, não...
O certo é que ordem e método são, segundo os técnicos, meios, armas ou ferramentas reconhecidamente eficazes para a consecução e o alcance de fins positivos compensadores. Dizem até que, na verdade, os meios condicionam os fins. Será?
Há quem diga, no entanto, que a genuína centelha da vida está, justamente, no caos, na desordem e no aleatório. Que a tentativa de organização é a verdadeira força motriz da vivência. Há quem diga.
Enquanto não se alinha uma posição inquestionável a respeito do tema, relato um caso pra lá de verídico, apenas para estimular o saudável debate. Com ordem, é claro:
Conheci um sujeito tão metódico e ordeiro que um dia, cansado da rotina, queimou os próprios chips e quase provoca um desastre geral.
Todos os dias limpava duas vezes os sapatos no capacho da entrada, cumprimentava o porteiro, apertava o número cinco no elevador, fazia o sinal da cruz, dava duas voltas na fechadura, beijava a esposa, acariciava os filhos, estirava-se no sofá, tomava dois goles, acendia o charuto e adormecia contando carneiros de uma raça definida. Um dia, em tempo de carnaval, limpou os sapatos no porteiro, beijou o elevador, fumou a chaves, acendeu a esposa, estirou-se no capacho, bebeu o sofá e adormeceu fazendo o sinal da cruz, ou coisa que o valha. Dessa vez, contou um rebanho inteiro de ovelhas de muitas cores que pulavam e cantavam sob o comando de um alegre pastor gordo.
Nesse dia será que teve seu momento de surpresa e liberdade?... Será?
Não sei. Não entrarei nessa discussão enquanto não se encaminhar a solução para o seguinte impasse – nascer com ordem para morrer com método, ou nascer com método para morrer com ordem?...
Enquanto isso, pensemos. Enquanto pensamos, que venha aquele sorvete de chocolate, creme e morango, com uma cereja em cima. Primeiro o creme ou o chocolate? A cereja por cima ou por baixo? E o morango?
Sejamos metódicos... ordeiros... o sorvete pode esperar. Pode?  

GUERRA À PAZ

Já teria dito alguém que, enfim, não teremos a terceira guerra e sim a paz mundial. De fato, apesar ou por causa dos enormes e insuspeitos esforços de paz – aquele estudo de plena harmonia, onde tudo medra e tudo cresce, positiva, benéfica e dinamicamente, foi substituída pela pacividade e pela alienação.
A paz de nossos dias, lotando a rica agenda de uma diplomacia tão sofisticada quanto irresponsável e festiva, rebentando e raiando no brilho das medalhas e dos brasões, empanturrada de “heroísmo”, fartando a ilustre cegueira de muitos governantes, tão cantada e festejada pela santa inocência de todos nós, tem sido, isto sim – a faca no peito, a bala no cano, a mão na garganta, a venda nos olhos, a bucha na boca, algemas trancadas, a fagulha sempre vizinhando a palha, a bomba tique-taqueando o tempo, o fantasma atrás da porta, o medo espremendo o coração das pessoas, a corda estirada, maneias, sogas, soiteiras – uma grande loucura, bem montada, livre e solta, tropeando misérias...
A paz que nos tem feito entoar hinos e desfraldar bandeiras é a mesma que feriu o Papa e assassinou Kennedy; é aquela que arrazoa e justifica o colonialismo, a escravidão e as ditaduras; que alimenta e nutre a corrupção em mordomias e falcatruas; que esconde o pão e ostenta as armas; que distribui as drogas e a promiscuidade; paz dos casuísmos, da repressão, do salário minguado da doença e da fome; paz que permite o moralismo enquanto censura a moralidade.
Paz que cala o poeta, que sufoca o canto, que descolore crianças, que ironiza o pranto, que desmente a vida, que sufoca o sábio, que desfaz a lida, que desencanta o truque, que não perdoa o trote, não é paz – é desenlace, é morte. Pois esta anda às clarinadas por aí, pensando que é tudo, quando é nada.
Paz que suja os rios e queima as matas; que incendeia os mares e polui os ares; que dizima as baleias e cerceia os pássaros; que escasseia o bálsamo e multiplica o veneno; que mata os prados e se espaça em desertos.
Até quando? Até onde?
Dia chegará em que será bem vinda e bem chegada a guerra que acabar com essa paz. E quando a explosão humanista bombardear todas as consciências, saberemos que essa guerra chegou. Será a terceira e última...
Será?

O COMUNISTA

Lá pela década de 50, o Partido Comunista Brasileiro vivia na mais absoluta clandestinidade. Tudo o que dissesse, fizesse ou pensasse era, rigorosamente, ilegal. Volta e meia prendiam um camarada aqui, outro acolá, e às vezes trancafiavam grupos inteiros.
Dom Pedrito, que naquele tempo estava plenamente inserido no contexto nacional, também abrigava partidários de Marx. E não eram tão poucos assim...
Em assembléia geral, enchiam bons quatro bancos da Praça Central. Só os partidários, é claro. Se fôssemos contabilizar os curiosos, precisaríamos de todo o Largo da Estação Férrea.
Pois, certa feita, os comunistas locais resolveram desencadear um ardente comício de preparação ao grande e redentor levante. A notícia corria em surdina, cuidadosamente codificada, passava de boca em boca, articulando a secreta senha da revolução.
O encontro seria na frente da casa do líder maior, lá no bairro, quase fugindo da área urbana da cidade.
O sinal para o momento da reunião seria um ruidoso e ensurdecedor foguetório. Era mês de junho e a contemporaneidade do evento com as festas de S. João, seria a estratégia genial para não levantar suspeitas e não cutucar a força repressora. Dito e feito! À hora aprazada do dia escolhido estouraram as bombas, incendiando a fria noite do outono pedritense.
Joselmar Alves, vulgo Chinoco, um tipo popular, acidente da vida, dono do maior e melhor quinhão de inocência deste mundo, fisionomia quase asiática (daí o apelido), simplório, serviçal, ajuntado com Ivonete, transpirando ignorância e infantilidade por todos os poros, não ficou indiferente aos foguetes e correu na direção do tumulto.
Lá no palanque, dizia-se isto e aquilo a respeito de patrões e empregados. Convidava-se o povo para tomar o freio nos dentes e disparar pampa a fora em busca de poder e liberdade. Falava-se muito na heróica Bolchevista e na histórica virada a favor do proletariado.
Chinoco não entendia o verbo mas estava encantado com toda aquela barulheira. Curioso, esperava o espocar de mais foguetes e, como criança, catava os panfletos que choviam graciosamente, por conta dessa intentona. Nisto, foi um corre-corre, um Deus nos acuda.
Era a Força Repressora que chegava inteira e decidida, desmanchando o comício e prendendo uns e outros. Nessa confusão pegaram também o Chinoco para explicar-se no Quartel.
Naquela noite, Ivonete não teve seu companheiro dividindo o travesseiro. Lá na guarnição, interrogava-se este e aquele para saber-se a dimensão da revolta e a aquilatar-se os efeitos da travessura. No interrogatório, foi inevitável o exercício de saudáveis joelhadas e instrutivos cascudos, só para objetivar as respostas. Chinoco não ficou fora desse salutar expediente. Aliás, recebeu dose mais generosa porque, na verdade,  suas respostas confundiam o Conselho Inquiridor. Um dos Conselheiros, em momento de extrema estafa, chegou a afirmar que aquele era o grande mentor do movimento subversivo. Logo convenceu-se do contrário...
Ao amanhecer, Chinoco foi solto, levando uma imensa baralhada no peito e um belo galo na testa.
Na cidade pequena, a fofoca logo se espalhou. A própria Ivonete, esposa dedicada, de origem bugra, tão inconscientemente feliz como o marido, também ficou sabendo que Chinoco tinha sido preso como comunista.
Ivonete era católica fervorosa. Naquele tempo, católicos e comunistas fugiam uns dos outros como o diabo da cruz. Naquele tempo...
Às sete da manhã, Chinoco bateu na porta de sua Ivonete. A porta se abriu e uma tranca de madeira de lei, habilmente manobrada pela doce Ivonete, achou o outro lado da testa do marido folgazão, má conduta, herege, comunista.
Uma surra na guarnição e outra em casa, só para aprender!...
É, pois, que nesta vida cada indivíduo há de pagar o preço de suas convicções ou pela falta delas... Na rua ou dentro de sua própria casa!!
Esse é o mundo. Assim é a história...